Peças raras de arte namban na exposição "Depois dos Bárbaros", em nova galeria no Chiado (c/foto)

Ana Goulão (texto), Manuel Almeida (fotos), da Agência Lusa

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Lisboa, 18 Jan (Lusa) - Uma sela em laca vermelha e madrepérola decorada com imagens de portugueses é uma das peças raras e exóticas de arte namban em destaque na exposição "Depois dos Bárbaros II", patente numa nova galeria de antiguidades, em Lisboa.

O espaço, com trezentos metros quadrados, foi inaugurado terça-feira à noite pelos sócios Jorge Welsh e Luísa Vinhais, que detinham uma galeria mais pequena na Rua de São Bento, entretanto encerrada, também dedicada a porcelanas orientais, obras de arte indo-portuguesas, afro-portuguesas, sino-portuguesas e namban.

A exposição "Depois dos Bárbaros II, Obras de Arte Namban para os Mercados Japonês, Holandês e Português" integra um conjunto de "dezanove peças únicas, extraordinárias pela sua raridade, exotismo e beleza, e complementa a anterior mostra, realizada em Londres e em Lisboa, em 2003", explicou Jorge Welsh à Agência Lusa.

Deste antiquário também saíram algumas peças, nomeadamente uma espingarda japonesa, para integrar a grande exposição de arte "Encompassing the Globe" sobre os Descobrimentos Portugueses, que esteve no último Verão em Washington, e actualmente está patente em Bruxelas no âmbito do festival Europalia.

De acordo com Jorge Welsh, as peças desta exposição - que esteve quatro anos em preparação - são provenientes de coleccionadores particulares de todo o mundo, desde a Europa, Estados Unidos e do oriente.

As obras de arte namban foram produzidas durante a presença dos ocidentais no Japão, que teve início em 1542 com a chegada dos portugueses a Tanegashima, e terminou em 1639, quando o governo de Tokugawa fechou oficialmente todos os portos aos ocidentais (designados por sakoku), à excepção dos holandeses, que não faziam proselitismo da fé cristã.

A chegada dos portugueses "foi uma grande surpresa para os japoneses, que viviam muito isolados de outros povos, e ficaram fascinados com os barcos diferentes, a fisionomia, as roupas, os usos e costumes dos ocidentais", referiu Luísa Vinhais.

"Os portugueses eram representados nos desenhos decorativos de vários objectos com grandes narizes, que ilustram o quanto os impressionava essa diferença fisionómica", observou, acrescentando que, naquela época, possuir objectos com figuras de portugueses "era um sinal de prestígio".

À semelhança do que tinham feito na Índia e na China, os mercadores portugueses encomendavam peças para levar para Portugal que teriam utilidade num contexto europeu, e no Japão eram habitualmente produzidas em laca ricamente decorada a ouro e com embutidos em madrepérola.

Exemplos desses objectos integrados na exposição são duas garrafas de saqué do final do século XVI em madeira de cipreste, uma caixa em formato de uma carta dobrada, um oratório com a imagem de Cristo, e os biombos cartográficos de seis painéis pintados e folheados a ouro sobre papel.

Algumas das peças da exposição foram tratadas em Portugal por especialistas em restauro, "mas foram essencialmente apenas limpas e restauradas em pequenas falhas em que os peritos tinham certezas quanto ao original", explicou a antiquária.

Nesta nova galeria, Luísa Vinhais e Jorge Welsh apostaram na versatilidade do espaço, dotando-o de infrastruturas para promover exposições e conferências, e ainda uma bilioteca com uma zona dedicada à venda de livros de arte.

"Queremos também fazer uma ligação entre o mundo dos antiquários, dos coleccionadores e o mundo académico", salientou, sobre o novo projecto.

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