Pessimismo de Saramago causa polémica em Salamanca

O pessimismo e a visão sobre a democracia de José Saramago dominaram o debate de seis escritores da literatura ibero-americana com estudantes de Salamanca, onde termina hoje a XV Cimeira Ibero-americana.

Agência LUSA /

O encontro, que se inseriu no amplo calendário cultural organizado paralelamente à cimeira, reuniu, além de Saramago, o chileno Jorge Edwards, a brasileira Nélida Piñon, e os espanhóis Pablo García Baena, Carlos Bousoño e José Manuel Caballero Bonald.

O debate, nas Escolas Maiores da Universidade de Salamanca, pretendia analisar as obras dos escritores, que focaram nas suas intervenções aspectos como a defesa da escrita e a importância da imaginação e da consciência na literatura.

No entanto, um comentário do Nobel português suscitou críticas de alguns dos participantes, ampliando o debate a questões mais políticas, muitas centradas em torno da última e polémica obra de Saramago, o "Ensaio sobre a Lucidez".

"Não é que seja pessimista, é que o mundo é péssimo", disse Saramago, depois de explicar que escreve para procurar entender o mundo, a vida, a história e a sociedade, já que só percebendo-a se pode tentar mudá-la.

Em resposta, um jovem pediu a palavra para perguntar se o escritor "é tão pessimista, então porque é que não se suicida já?", criticando o facto de a Universidade de Salamanca ter atribuído ao escritor português um doutoramento honoris causa.

O comentário suscitou apupos da plateia, que se dividiu, levando o catedrático de história da língua espanhola, José António Pascual, a afirmar que Saramago poderá ter sido homenageado pela "coerência de usar a palavra e não a pistola ou a bofetada para tentar mudar a realidade".

Vários participantes latino-americano saudaram o escritor, com uma jovem boliviana a afirmar que "quem vive na América Latina será sempre pessimista" e que é vital "questionar o mundo e as falhas da democracia".

Explicando o tema do seu livro, Saramago reafirmou que não defende o voto em branco, pretendendo sim argumentar que "a democracia funciona mal", já que não são os governos que mandam no mundo, "mas sim as instituições" e que, como tal, "o voto é inútil".

Como "prova" de que a sua posição merece alguns apoios, Saramago disse que o vice-presidente guatemalteco, Eduardo Stein, lhe comentou, à margem da cimeira de Salamanca, que depois de ler o "ensaio", obrigou todos os seus assessores a lê-lo, "para estarem preparados para o caso de isso ocorrer".

O livro documenta um processo eleitoral em que os cidadãos votam, na totalidade, em branco.

ASP.

Lusa/Fim


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