Pinacoteca de Jorge Amado leiloada para salvar fundação
Rio de Janeiro, 14 Nov (Lusa) - A colecção de obras de arte do escritor brasileiro Jorge Amado, reunida ao longo dos seus 88 anos de vida com a sua esposa Zélia Gattai, irá a leilão na próxima semana no Rio de Janeiro.
A família de Jorge Amado decidiu, há três meses, leiloar o acervo formado por quase 600 obras de arte entre quadros, esculturas, desenhos e cerâmicas pertencentes ao escritor por precisar de dinheiro para manter a Fundação Casa de Jorge Amado.
Entre as obras estão obras do artista português Manuel Cargaleiro e da ceramista Rosa Ramalho.
Em declarações à Lusa, a filha do escritor e Zélia Gattai, Paloma Amado, disse que parte do resultado do leilão será revertida em prol da casa do Rio Vermelho, bairro em Salvador onde se localiza a residência da família, que deverá tornar-se um memorial.
"A ideia é preservar e valorizar as obras e também restaurar a casa em Salvador. Esperamos vender tudo", afirmou.
Além da conservação da residência, onde durante muitos anos a família morou, orçada em 3,5 milhões de reais (1,2 milhão de euros), grande parte do dinheiro será destinada à Fundação Casa de Jorge Amado, localizada no centro histórico de Salvador, o Pelourinho.
A fundação é um centro cultural e detém todo o acervo do escritor com originais, primeiras edições, cartas, entrevistas, reportagens, adaptações, além de 30 mil negativos de fotos doados por Gattai. No entanto, actualmente o centro sofre por falta de recursos e de patrocínios.
"Ficamos desesperados porque tudo poderia se perder pela falta de manutenção. Pensamos que o ideal era fazer um leilão e com isso preservar as obras. Nós queremos dar o dinheiro à fundação e viver com menos medo de fechar", lamentou Paloma.
Para ela, a expectativa para o leilão é "muito boa". Muitos coleccionadores deverão comparecer ao evento, que ocorre entre os dias 18 e 21 de Novembro no Rio, mas também interessados entre brasileiros e estrangeiros pela obra literária de Jorge Amado.
Segundo uma das organizadoras do leilão, Soraia Cals, o acervo conta a história da vida de Amado, porque a maioria das obras foram oferecidas por artistas e intelectuais com quem o escritor convivia.
"Quase cem por cento das obras eram dedicadas a ele, o que valoriza muito o seu acervo. São objectos muito pessoais de artistas que fizeram dedicatórias ao longo de seus 88 anos de vida. Esse leilão conta a história de sua vida inteira", disse à Agência Lusa.
Todo o acervo está avaliado em nove milhões de reais (cerca de três milhões de euros). As obras que variam de 100 reais e 800 mil reais (cerca de 300 mil euros).
Entre as peças de maior valor, há obras de Djanira, Lasar Segall, do argentino Carybé, Carlos Scliar, Volpi, Burle Marx, Anita Malfatti, Oscar Niemeyer, José Pancetti, António Bandeira, Di Cavalcanti, Diego Rivera e até mesmo uma litografia do espanhol Pablo Picasso da época que Amado pertencia ao partido comunista, na década de 50.
A obra mais valiosa é um painel da artista brasileira Djanira, amiga de Jorge Amado, intitulado "Candomblé", de 1955, de 2,5 por 2,4 metros, que será leiloada por, pelo menos, 800 mil reais.
Soraia Cals afirma que todo o acervo se degradaria em pouco tempo caso a família não decidisse vendê-lo.
"Estão a vender para salvar o acervo. Se não fizessem a venda, o acervo iria para o fim pois a conservação custa muito caro. A família tomou esta decisão para manter a história de Jorge Amado. A colecção tem uma coerência estética ligada a sua obra ou a Bahia e a sensação é como se estivéssemos dentro de suas obras literárias".
O acervo está disponível ao público no Rio de Janeiro até segunda-feira. Esta será a última oportunidade de o ver todo reunido.
FO
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