Cultura
Pintura de Paula Rego "O Impostor" é primeira compra do Estado para novo museu no CCB
A pintura "O Impostor" (1964), da artista Paula Rego (1935-2022), que retrata Salazar de forma satírica, é a primeira obra adquirida pelo Estado para integrar o novo museu que ficará sob gestão do Centro Cultural de Belém, em Lisboa.
“Há dois motivos que justificam esta aquisição: o ano da morte de Paula Rego e a altura em que teremos um novo museu no espaço onde até agora esteve o Museu Berardo”, a partir de terça-feira, revelou o ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva, em declarações à agência Lusa.
A pintura a óleo e técnica mista sobre tela foi adquirida pelo Estado por 400 mil euros à família da artista, escolhida por constituir uma referência marcante da trajetória de uma das mais destacadas artistas portuguesas a nível internacional, que morreu em junho, aos 87 anos.
“Seria impensável ter um novo museu de arte contemporânea [instalado no Centro Cultural de Belém] que não tivesse uma peça significativa da Paula Rego pertencente ao Estado Português”, sublinhou o ministro da Cultura sobre a aquisição que irá ficar em depósito já no ex-Museu Berardo, cujo nome deverá ser divulgado no início da semana, na sequência da extinção da Fundação de Arte Moderna e Contemporânea – Coleção Berardo.
A CACE passará a ter 10 peças da pintora Paula Rego: “[A Coleção] já tinha oito, quatro em depósito em Serralves [no Porto] e mais quatro no [Centro de Arte Contemporânea] em Coimbra, e passou a ter nove com a entrada de uma obra que se encontrava na Coleção Ellipse, este ano adquirida pelo Estado”, indicou o ministro da Cultura à Lusa.
“Sem desvalorizar as outras, esta peça é muito maior, e tem outro significado e relevância para estar exposta num museu de arte contemporânea com um perfil internacional”, sublinhou Pedro Adão e Silva sobre o novo projeto que será desenvolvido ao longo do ano, findos os 15 anos de comodato acordado entre o Estado e o colecionador e empresário José Berardo, cuja coleção de arte está arrestada pela justiça e à guarda do CCB.
Adão e Silva recordou que a iniciativa “é um sinal, um contributo” que responde ao apelo do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, quando Paula Rego morreu, no sentido de serem feitas mais aquisições para Portugal.
Questionado sobre o critério para a seleção de uma obra onde o ditador António de Oliveira Salazar (1889-1970) surge representado satiricamente como um polvo, Pedro Adão e Silva explicou que é “muito emblemática por várias razões”.
“Foi uma opção por uma peça de um período onde há lacunas significativas da presença de obras de Paula Rego em Portugal, da década de 1960, um período importante para a identidade da artista, e em que o tema da ditadura em Portugal está muito presente”, justificou.
A pintura, criada em 1964, com 179 por 158 centímetros, esteve na primeira exposição de Paula Rego em Portugal, em Lisboa, na Sociedade Nacional de Belas Artes, em 1965.
“De certa forma, a simbologia também é essa: é uma peça que regressa a Portugal, e regressa a um país já democrático”, salientou Pedro Adão e Silva à Lusa.
“O Impostor” encontra-se atualmente em exibição no Museu de Pera, no centro histórico de Istambul, numa retrospetiva dedicada à artista – devido a um compromisso prévio -, e deverá vir para Portugal depois do encerramento da exposição, a 30 de abril.
No dia da morte de Paula Rego, a 08 de junho, em Londres, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, depois de manifestar pesar pelo desaparecimento da pintora, destacou a importância da compra de duas obras da artista realizada pela Fundação Calouste Gulbenkian ("O Anjo" e "O Banho Turco"), pedindo ao Estado e privados que completassem essa iniciativa.