Poema renegado por Guerra Junqueiro editado pela Tinta da China

Lisboa, 25 dez (Lusa) -- O poema que o escritor Guerra Junqueiro mais se esforçou por fazer desaparecer, intitulado "Torre de Babel", foi publicado este mês pela Tinta da China, num livro que integra a narrativa "O casamento simulado".

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A ponte de ligação entre os dois textos é Pedro Soriano, "um dos mais famosos patifes que povoaram Lisboa no último quartel do século XIX", escreve o historiador António Ventura no posfácio da obra.

O historiador afirma que Guerra Junqueiro escreveu o poema "Torre de Babel ou a porra do Soriano" num repente à mesa de um café.

O texto "alcançou de imediato um sucesso estrondoso", apesar de o autor nunca ter permitido a sua publicação, e surgiu em "várias edições clandestinas, quase todas com a data de 1882".

A história -- conta-a António Ventura -- roça o obsceno. Pedro Soriano era "possuidor de um membro viril descomunal", mas "o poeta mostrou-se incrédulo" levando os amigos a promoverem-lhe a "observação direta". Ainda segundo o historiador, o poeta "pasmou e terá exclamado que merecia ser cantado num poema". Assim o fez à mesa de um café.

"Bem se arrependeu o poeta da sua espontânea homenagem ao tratante", afirma Ventura, que acrescenta que durante toda a sua vida Guerra Junqueiro chegou a pagar elevadíssimas somas por edições do poema e para "destruir dezenas de exemplares do folheto".

Além do poema, que Natália Correia já referenciara em "Poesia Erótica e Satírica Portuguesa" (1966), a edição da Tinta da China inclui ainda "O casamento simulado", antecedido por uma carta que o poeta João de Deus escreveu à mãe de Pedro Soriano.

Esta narrativa conta como Pedro Soriano seduziu a menor Maria Eugénia dos Santos e encenou um casamento num "palácio devoluto na praça de D. Pedro", em Lisboa, cidade onde morava desde 1881. Para efeito, contou com vários amigos que "encarnaram" o sacerdote, o sacristão, um suposto padrinho e até um presumível barão que teria "emprestado" o palacete.

Casado com Maria Eugénia, Soriano foi morar para Abrantes, onde levou "uma vida desregrada de estroina" e começaram a "surgir atritos entre o casal". Entre várias vicissitudes, a própria desconfiou que foi ludibriada, pois reconheceu um dos que aceitou participar na encenação do casamento e que insistentemente lhe batia à porta pedindo dinheiro.

Soriano e os "comparsas" acabam por ser julgados em fevereiro de 1887. Pedro Soriano é condenado a dois anos de prisão, mas ficou em liberdade sob fiança, fugindo para Espanha e depois para os Estados Unidos.

Pedro Soriano tinha no entanto outros registos que o levaram à cadeia, apesar de ter sido chefe do 3.º Corpo de Fiscalização do Algarve, cargo que alcançou depois de ter atraiçoado o amigo José das Redes, "o mais famoso contrabandista algarvio", escreve Ventura.

No livro, o historiador traça ainda o relato de uma vida de violências e desacatos.

Pedro Soriano, nascido em 1842 em Albufeira, tornara-se já famoso por ter liderado a "Sociedade dos Terríveis", grupo constituído por seis jovens que assaltavam cemitérios e arrombavam jazigos "entre patuscadas e bebedeiras". Apesar de se suspeitar de ter morto dois compinchas nunca ficou provado.

Alistou-se posteriormente no Exército de onde saiu, "empregou-se nos Correios" vindo até a dirigir uma publicação sobre este meio, e integrou ainda o quadro das Alfândegas.

Guerra Junqueiro, escritor, deputado e jornalista, considerado um dos grandes paladinos da República, morreu em Lisboa em julho de 1923.

Da coleção "Livros licenciosos", coordenada por António Ventura, fazem ainda parte, por exemplo, "Aventuras Galantes", de Rabelais, e "O pauzinho do matrimónio", ilustrado por Rafael Bordalo Pinheiro.

NL.

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