"Ponte 25 de Abril" fez 40 anos

A ponte propriamente dita já tinha oito anos de existência, mas só passou a chamar-se "Ponte 25 de Abril" em Outubro de 1974. A revolução tardou mais de cinco meses em remover as letras de ferro que diziam "Ponte Salazar". O responsável do aggiornamento toponímico, coronel Varela Gomes, falou ao on-line da RTP sobre o facto.

RTP /
Rafael Marchante, Reuters

A revolução de Abril, como todas as revoluções, derrubou estátuas - menos talvez do que outras. Ainda assim, tornou-se notado o derrubamento, logo após o 25 de Abril, da estátua do marechal Carmona no jardim do Campo Grande em Lisboa. E foi-se tornando cada vez mais notada a sobrevivência das enormes letras de ferro que perpetuavam o nome de ditador nos pilares da ponte sobre o Tejo.

O coronel João Varela Gomes, figura destacada da resistência antifascista, recorda ainda hoje "o insulto que era, para quem passava em Alcântara, a visão daquele nome". E não era ele o único a sentir-se insultado.

Mas as suas tarefas eram outras, nomeadamente na Comissão de Extinção da PIDE. E assumiu-as com tanto empenhamento que chegou a ser detido, durante algumas horas, por ordem do general Jaime Silvério Marques, que viu nesse empenhamento uma ameaça à Junta de Salvação Nacional.

Acontece que o desvelo em proteger os informadores da PIDE contra a Comissão de Extinção e a inércia em manter o nome de Salazar nos pilares da ponte tinham na sua origem as mesmas forças descontentes com o rumo da revolução. E essas forças em breve tentariam sucessivos golpes de força, primeiro pela via incruenta e palaciana que tentou o primeiro ministro Adelino da Palma Carlos, depois pela via mais agressiva que tentou o presidente da República, general António de Spínola, ao chamar à rua a "maioria silenciosa", em 28 de Setembro de 1974.

Ambas as tentativas se saldaram em derrotas. Na primeira, o primeiro ministro Palma Carlos foi substituído por Vasco Gonçalves. Na segunda, o presidente Spínola foi substituído por Costa Gomes. Logo a seguir ao 28 de Setembro, o novo presidente chamou Varela Gomes e encarregou-o de organizar uma comemoração condigna da implantação da República.

À RTP, contou Varela Gomes que fez notar ao novo presidente o prazo escassíssimo - menos de uma semana - que lhe estava a ser dado para organizar a comemoração condigna do 5 de Outubro. A resposta do general foi lapidar: "Desenrasque-se".

Varela Gomes assim fez. Organizou, por um lado, uma sessão pública para a qual convidou Salgado Zenha e na qual lhe cedeu a primazia como orador principal. E organizou, junto com uma equipa de operários da Sorefame, a substituição das letras de ferro insultuosas por outras que diziam "Ponte 25 de Abril".

Depois, foi chamado à pedra nomeadamente pelo presidente, e até pelo primeiro ministro, por essa comemoração condigna do 5 de Outubro. Censuravam-lhe uma alegada "usurpação de funções", por ter rebaptizado mediante a acção directa aquilo que devia ter corrido por canais institucionais. Mas os canais institucionais só tinham, até aí, eternizado o problema. E o que estava feito, estava feito.

Ironicamente, a acção directa revolucionária não cometera qualquer ilegalidade ao retirar as letras de ferro, porque o nome legal da ponte nunca fora "Ponte Salazar" e sim, até aí, "Ponte sobre o Tejo". Hoje, 48 anos depois de inaugurada a Ponte, esta ostentou durante oito anos, ilegalmente, o nome do ditador; e completou agora 40 anos com a nova designação, entretanto legalizada há muito.
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