Portuguesa prepara livro sobre vida do filho, suspeito de terrorismo islâmico

Lisboa, 21 Fev (Lusa) - A portuguesa Teresa Quintas Chopin, mãe de um suspeito de terrorismo islâmico, está a preparar um livro sobre a vida do seu filho, morto em 2007 na Somália, durante a invasão do país pela Etiópia, revelou à Lusa.

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Omar Chlendi, filho de pai tunisino e mãe portuguesa, morreu a 08 de Janeiro de 2007 na Somália, onde se encontrava numa alegada missão humanitária, quando a Etiópia invadiu aquele país e expulsou as milícias islâmicas que o governavam.

De acordo com Teresa Chopin, que reside há mais de 30 anos em França, o filho foi vítima de "uma bala perdida".

"Quero escrever um livro a contar toda a história. Vai ser como uma terapia para mim. Já tenho muito material e penso que pode ser útil também para outras pessoas", disse Teresa Quintas Chopin por telefone à Agência Lusa.

A portuguesa garantiu ainda à Lusa que o seu filho não era o terrorista que as autoridades tunisinas o acusaram de ser.

"Nunca ninguém provou a acusação de terrorismo, tanto que o tiraram da prisão e ele não cumpriu os (13) anos a que foi condenado", sublinhou.

Omar Chlendi foi acusado de incitar a actos de terrorismo pela Internet e chegou a cumprir três anos de prisão na Tunísia por esse crime.

Segundo o relatório de 2007 da Amnistia Internacional (AI), Chlendi foi preso com mais cinco homens, todos originários da cidade de Zarzis, no sul da Tunísia e condenados por práticas terroristas "depois de um julgamento injusto".

"As confissões, alegadamente obtidas sob tortura, foram a principal prova contra eles", denunciou a AI

Quando saiu da prisão, aos 23 anos, regressou com a mãe para França, mas nunca se conseguiu integrar.

A portuguesa acredita que os três anos que o filho passou na cadeia foram os grandes responsáveis pelo seu destino porque "se não tivesse sido a prisão, ele teria sido uma pessoa como as outras".

"Foi a prisão que fez com que o meu filho ficasse assim. Ele foi muito marcado por aquele país. Não podia convencer-se de que a vida dele seria normal, por isso, tinha de fazer qualquer coisa para ajudar os outros, para se encontrar", disse à Lusa.

De acordo com Teresa Quintas Chopin, desde que regressou a França, o seu filho nunca se conseguiu adaptar "à rotina de um jovem normal".

"Ele estava inscrito na faculdade, tinha um emprego, mas não se conseguia adaptar. De um dia para o outro - a 01 de Novembro de 2006 - foi-se embora com a mão no bolso, sem saco, sem mala, sem se despedir", relatou a portuguesa que só duas semanas depois recebeu um telefonema do filho a dizer que estava na Somália numa missão humanitária a "ajudar os pobres".

"Pediu-me perdão por se ter ido embora dessa maneira, mas disse-me que estava feliz e que iria regressar a França", disse, acrescentando que Omar começou a telefonar com regularidade.

Depois do telefonema feito pelo Natal, Teresa Quintas Chopin nunca mais teve notícias do filho até que em Julho de 2007, a Organização Não-Governamental Human Rights Watch lhe comunicou que Omar Chlendi tinha morrido.

"Ele morreu a 08 de Janeiro, mas só soubemos muito mais tarde, quando umas pessoas que estavam presas na Etiópia e testemunharam tudo foram libertadas. Parece que as forças etíopes atacaram a Somália, o grupo humanitário onde estava o meu filho fugiu, mas ele levou com uma bala perdida. Foi o único. Os outros atravessaram a fronteira para o Quénia, mas ele não conseguiu", afirmou.

"E a minha cólera torna-se ainda mais intensa quando penso em Omar Chlendi que nos deixou na Somália e em todos os náufragos dos barcos da morte e em todos aqueles ceifados pelos campos de treino militar sabe-se lá Deus onde" - ainda hoje, o nome de Omar Chlendi circula por blogs da Tunísia, como este astrubal.nawaat.org.

Os restos mortais de Omar Chlendi ficaram na Somália, "enterrados numa vala comum" porque Teresa Quintas Chopin abdicou de o levar para França.

"Seis meses depois o que é que restava? O que me iriam dar eram ossos que nem saberia se eram os do meu filho", explicou.

MCL.

Lusa/Fim


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