"Poveirinhos pela graça de Deus" reúne várias histórias das gentes da Póvoa de Varzim
Um conjunto de crónicas sobre a Póvoa de Varzim em linguagem universal "para se irem lendo", é como o jornalista José de Azevedo apresenta o seu mais recente livro, "Poveirinhos pela graça de Deus".
O título, explicou à Lusa, retirou-o de um registo de bordo do Rei D. Luís, que, quando navegava nas águas da Póvoa, ao avistar uma lancha perguntou aos pescadores se eram espanhóis ou portugueses, ao que estes responderam: "Poveirinhos pela graça de Deus".
"Estava assim - disse - criado o `Reino da Póvoa`, que, na realidade, corresponde ao isolamento a que se votava a comunidade piscatória poveira".
Na definiação do autor, "este é um livro que é para se ir lendo, com histórias curtas, numa linguagem universal e com humor, e um colorido local, poveiro".
A obra, com a chancela da Câmara da Póvoa de Varzim, divide-se em nove capítulos e inclui em anexo o "glossário poveiro", provérbios e termos próprios e ainda "`juras` da classe piscatória".
O glossário, com mais de cem palavras ou expressões específicas do "reino da Póvoa", contém termos como "jagunços", que são barcos costeiros de pesca com redes de cerco para a pesca da sardinha, ou "intão", que é um quintal virado para o mar sem ser murado.
O autor, 72 anos, atesta que este "é um livro sobre a Póvoa até aos dias de hoje, que dá uma ideia da cidade e das suas gentes".
Nele se relata, por exemplo, o "alarido" que varreu a cidade em 1982 quando se supôs que "se ouviam suspiros de aflição" na torre sineira da igreja matriz e os mesmos foram atribuídos a "almas errantes procurando pagar pecados terrenos". Nada mais era, afinal, do que pios de um casal de corujas que ali decidira fazer o seu ninho.
Há também histórias de personagens características como a "pescadeira" (peixeira) Susana da Costa, que fará 86 anos em Setembro e é descrita pelo autor como "a alma do bairro Sul".
Ela "encarna perfeitamente a genuína mulher poveira", autora, segundo José de Azevedo, do pregão "Pescada vivinha da costa".
Por esta conjugação de elementos, o autor entende que "Poveirinhos pela graça de Deus" é "ao mesmo tempo antropológico, sociológico, histórico e, claro está memorialista".
"Nascido em Vila do Conde a quatro casas da Póvoa e a três quilómetros do centro da terra onde nasci, cedo me liguei à Póvoa e a vê-la da minha janela", disse.
José de Azevedo tem várias obras publicadas, nomeadamente "Histórias do mar da Póvoa" (2001), que inaugurou a colecção "Linha do horizonte - Biblioteca Poveira", na qual agora publica "Poveirinhos pela graça de Deus".
Colaborou nos periódicos Comércio da Póvoa, Ala Arriba, Mundo Desportivo, Gazeta dos Desportos e Jornal de Notícias. De 1982 a 1990 foi director de A Voz da Póvoa.
Em 1973 publicou "Homens do mar da Póvoa" e três anos depois "A Póvoa de Varzim, a terra e o mar". É ainda autor de 14 títulos de teatro musicado, nomeadamente "Saúde e bichas" (1998) ou "Eram quase 200 irmãos" (1956), e do livro de poemas "Esperança" (1953).