Presépio de conchas e búzios restaurado regressa ao Museu de Évora

Évora, 19 Dez (Lusa) - Um presépio do século XVIII, feito em conchas e búzios e com figuras em terracota, pertencente ao Museu de Évora e que estava em "muito mau estado", foi alvo de conservação e restauro, trabalho agora concluído.

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"É uma peça única nas nossas colecções e muito interessante. Estava frágil, as conchas desprendiam-se e caíam, e em muito mau estado. O restauro conseguiu estancar a instabilidade e devolver-lhe o brilho primitivo", disse hoje à agência Lusa o director do Museu de Évora, Joaquim Caetano.

O resultado da intervenção de conservação e restauro a que o presépio foi submetido, hoje apresentado, está visível na Igreja de Santa Clara, onde funciona o Núcleo Provisório de exposições do museu, cujo edifício principal se encontra em obras.

"O presépio é relativamente pequeno e, mesmo não sendo uma obra maior da história do presépio em Portugal, como por exemplo as famosas peças de Machado de Castro ou António Ferreira, é invulgar e mistura muitos elementos diferentes", salientou Joaquim Caetano.

Além de figuras em terracota, algumas de "muito boa qualidade", e imagens em cera, o presépio assenta numa "maquineta" (caixa ou móvel) cujo interior está decorado com conchas e búzios, recortados para fazer flores, degraus de escadas, balaustradas, colunas e outros elementos decorativos.

"A maquineta estava completamente pintada de castanho-escuro, talvez para imitar uma madeira nobre. A tinta foi removida com o restauro e foi encontrado um douramento quase intacto", revelou o responsável.

A origem da peça e o seu respectivo autor ainda permanecem no "escuro", embora o trabalho de investigação de Conceição Ribeiro, a especialista que coordenou a conservação e restauro, indique que poderá ter sido feita em Portugal.

"Não temos qualquer informação sobre a entrega do presépio ao museu, mas sabemos que, nos anos 30, quando foi feito um registo fotográfico, a peça já cá estava. Poderá ser de origem portuguesa, pois, algumas das suas conchas existem na nossa costa", disse o director.

Para Conceição Ribeiro, do Centro de Conservação e Restauro (CCR), este trabalho, que envolveu seis técnicos e se prolongou por um ano, foi "muito minucioso" e "complexo", tendo permitido reflectir sobre os presépios de conchas, tradicionalmente algo "desprezados".

"Sempre foram um bocadinho desprezados porque utilizam materiais menos nobres, mas, na realidade, esta intervenção despertou uma consciencialização de que esta procura de materiais mais acessíveis pode ter interesse e que estes elementos, depois de trabalhados, têm uma certa erudição", defendeu.

A grande fragilidade da peça, que tem figuras também do século XIX, todas elas restauradas, tal como as imagens em cera, implicou cuidados redobrados para a fixação de todos os elementos das conchas e búzios, cuja cola original já tinha perdido poder adesivo.

Como o presépio "não era algo estático", sendo-lhe acrescentadas "personagens" com o passar dos anos, para substituir outras que se perdiam ou partiam, a intervenção levou ainda a alterações na recolocação das figuras de barro, para respeitar melhor a escala de cada uma e dar profundidade ao conjunto.

"É uma obra que, pela sua diversidade, interessa ao museu e marca um tipo de peças que eram usadas sazonalmente, muito antes de aparecer a novidade da árvore de Natal. Os grandes presépios estavam nos palácios e igrejas e outros, como este, nas casas ricas, para assinalar a quadra natalícia", argumentou Joaquim Caetano.

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