Publicados textos dispersos e parte do "Diário" de Lima de Freitas

A obra "Porto do Graal", editada esta semana, traz a lume pela primeira vez, excertos do "Diário" do pintor José Lima de Freitas, falecido em 1998, assim como vários textos seus que se encontravam dispersos.

Agência LUSA /

A obra, editada pela Ésquilo, é o primeiro título de uma colecção que editará os livros de Lima de Freitas, incluindo o "Diário" completo do pintor, disse à Lusa o editor Paulo Loução.

"Perspectivamos a publicação do vasto conjunto de `diários`que escreveu especialmente a partir da década de 1980", explicou.

A década de 1980 é considerada um dos períodos mais férteis de Lima de Freitas, onde surge em paralelo uma via teórica, de investigação e ensaio, e a pintura.

É nesta altura que Lima de Freitas se debruça sobre uma grande variedade de temas. Se até aqui a sua investigação era relativa à teoria da arte, começa aqui a focar o sagrado, a mitologia e as suas influências na arte.

O livro é amplamente ilustrado com reproduções de pinturas.

Paulo Loução salientou que na sua pesquisa "pela riqueza espiritual do país" Lima de Freitas "nunca teve uma visão saudosista ou passadista, de Portugal".

No prefácio, o filho, José Hartvig de Freitas, que ajudou na edição, refere a colaboração que teve com o pai, nomeadamente no trabalho sobre o "515", que daria a publicação de "515 - O lugar do Espelho".

A colaboração, recorda, começou pela leitura de um artigo no Herald Tribune sobre os quasi-cristais de simetria pentagonal e que acabou por se transformar "numa verdadeira investigação policial à volta de Dante [escritor italiano do século XIV]".

A expressão pictórica de Lima de Freitas desenvolveu-se entre o realismo e a mística, entre o quotidiano e o imaginário, entre uma certa inquietude e o mito.

Ao trabalho artístico Lima de Freitas foi somando uma pesquisa na área da antropologia do imaginário, acabando por se tornar amigo de um dos autores de referência nesta matéria, Gilbert Durand.

"Esta amizade levaria Durand a interessar-se pela tradição mítica portuguesa", explicou Loução.

Relativamente aos trabalhos do pai, Hartvig de Freitas afirma- se "não totalmente convencido da verdade literal", convidando antes o leitor "a tentar vislumbrar na obra de Lima de Freitas a verdade metafórica".

Nesta obra são publicadas partes do "Diário" relativas ao espírito Santo (Dezembro de 1983), sobre o esoterismo em Dalila Ferreira da Costa (Janeiro de 1985) ou "a urgência do imaginário" (Maio a Junho de 1985).

Fernando Pessoa, "D. Sebastião e o mito português" ou "Mitos e símbolos da terra lusa", são outros dos temas abordados no livro que totaliza 351 páginas.

José Maria Lima de Feitas nasceu em Setúbal em 1927, frequentou o curso de arquitectura da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa.

Apresentou-se a primeira vez como pintor na II Exposição Geral de Artes Plásticas da Sociedade Nacional de Belas-Artes, em 1947.

Destacou-se também na pintura de painéis de azulejos, na tapeçaria e na gravura, além de ter sido igualmente ensaísta.


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