Pulido Valente lança biografia de Paiva Couceiro, um "herói português"

Vasco Pulido Valente lança na próxima semana um a biografia de Paiva Couceiro, líder de um movimento monárquico contra a Republi ca, mas que aquele historiador e polémico comentador politico dissocia da direit a tradicional e católica.

Agência LUSA /

A direita personificada por Couceiro nasceu "do confronto directo com o Partido Republicano e a República jacobina e, mais tarde, com uma oposição domi nada pelo PCP, que não via um regime repressivo como única solução para a `crise nacional` e sonhou sempre, embora falhando sempre, em se tornar maioritária e p opular", afirma Pulido Valente no livro "Um Herói Português - Henrique Paiva Cou ceiro (1861-1944).

Trata-se de uma biografia de cerca de 150 páginas, com a chancela da Al etheia Editores, e que Pulido Valente insere "num retrato da Direita portuguesa do fim do século XIX até ao fim da ditadura em 1974" de que fariam parte as biog rafias de João Franco e Marcelo Caetano mas nunca a de Oliveira Salazar para "pr ovar que existia outra direita antes do salazarismo e mesmo dentro do salazarism o".

Pulido Valente afirma que o homem que comandou expedições em Angola e M oçambique para "avassalar" os povos indígenas e liderou a chamada "monarquia do Norte" (1919) pertencia a uma Direita que começa em finais do século XIX com Joã o Franco, primeiro-ministro de D. Carlos que a partir de 1907 impõe a "ditadura" e de que faz também parte Marcelo Caetano.

Tanto Couceiro como Caetano não se resignaram "fácil e permanentemente a um Estado policial por medo do jacobino ou do comunista", escreve o ensaísta.

Pulido Valente traça nesta biografia o retrato de um homem "guerreiro e monge" que contemporâneos seus compararam a D. Nuno Álvares Pereira, nomeadamen te o então governador-geral de Moçambique, António Enes, e o caricaturista Borda lo Pinheiro.

Rafael Bordalo Pinheiro referiu-o desse modo nuns versos em 1902, quand o Couceiro dirigiu uma carta à Câmara de Deputados, e desenhou uma caricatura on de usou como modelo uma gravura do século XIV do Santo Condestável, herói da bat alha de Aljubarrota.

O caricaturista comparou-o também, noutro número de A Paródia, a D. Qui xote, a figura central do romance de cavalaria de Miguel de Cervantes.

Na personalidade de Paiva Couceiro, segundo Pulido Valente, exerceu gra nde influência a sua mãe, Helena Isabel, uma inglesa convertida ao catolicismo e que "tinha que ser mais católica que os católicos e mais portuguesa que os port ugueses".

Será ela quem lhe dará para ler na infância "A história das cruzadas" e aos 11 anos "Ivanhoe" de Walter Scott, além de "D. Quixote".

Couceiro "desde muito cedo juntou à religião o culto maníaco das virtud es militares". O escritor Raúl Brandão afirmou até que o segredo do general "estava na superioridade da sua alma de místico".

Pouco antes de morrer, em Lisboa, aos 83 anos, no seu "despido apartame nto", em Lisboa, afiançou a um amigo "que tinha tudo o que precisava: um crucifi xo, a bandeira azul e branca da monarquia e três espadas com uma etiqueta: Magul , Galiza, esgrima".

A esgrima foi uma disciplina que sempre praticou até morrer, logo de ma nhã cedo, antes das primeiras orações às sete horas.

Magul foi uma das suas campanhas vitoriosas em Moçambique em 1895 e Gal iza de onde partiram as incursões monárquicas em 1911 e 1912 que desafiaram o po der republicano de Lisboa.

Pulido Valente desenha não só a personalidade de Paiva Couceiro, profun damente religioso e que esteve preso no dia que atingiu o quadro de oficiais por dar cinco tiros a um civil que lançara alguns impropérios à sua mãe no Chiado, como o ambiente político-social das épocas que atravessou.

Couceiro nasceu em 1861 e faleceu em 1944, depois de Salazar ter aceita do o seu regresso do exílio em Granadilha, na ilha espanhola de Tenerife.

O livro inclui seis páginas de bibliografia classificada citada por Pul ido Valente, que para este livro consultou também uma fonte não publicada, desig nadamente o processo de Henrique Mitchell Paiva Couceiro, existente no Arquivo d e História Militar.

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