"Puta que os pariu" - uma biografia "neutra e objetiva" de Luiz Pacheco
Lisboa, 21 dez (Lusa) -- Uma biografia "objetiva e neutra", que dê a conhecer melhor o escritor Luiz Pacheco, sem fazer juízos de valor sobre o homem ou a obra, foi o objetivo de João Pedro George ao escrever "Puta que os pariu".
A biografia, editada este mês pela Tinta da China, foi a tese de doutoramento de João Pedro George, coordenador da obra póstuma de Luiz Pacheco, "O crocodilo que voa", professor de sociologia da Cultura na Universidade Nova de Lisboa, que tem dedicado as suas investigações ao meio literário português.
"Tinha um gosto pela literatura do Pacheco, pela sua figura na cultura portuguesa, achava o homem e a obra interessantes porque saíam daquilo a que estamos habituados no meio cultural", disse João Pedro George à agência Lusa.
Sobre a biografia "Puta que os pariu", que diz ter um título "muito atual", o autor admitiu não ter pretendido fazer uma hagiografia nem tão pouco "dizer que Luiz Pacheco era um dos grandes escritores portugueses".
Antes "fazer uma leitura objetiva do autor", baseada nas imensas horas que passaram juntos, observou. O material reunido serviu para a tese de mestrado e, posteriormente, para a de doutoramento.
Sem se centrar muito nos textos de Luiz Pacheco, a obra pretende, segundo o autor, "fornecer as informações aos leitores para que estes depois possam julgar por si mesmo quem foi o escritor e o que representa na nossa cultura e na nossa literatura".
Uma das perspetivas sobre Luiz Pacheco é a de "escritor maldito", definição que o escritor "detestava mesmo", e com a qual não se sentia confortável, mas que, segundo João Pedro George, "cultivou e soube instrumentalizar de modo a promover-se, mesmo que inconscientemente".
Entre os vários episódios que caraterizam a vida e obra de Luiz Pacheco, João Pedro George citou "O caso do sonâmbulo chupista", quando acusou Fernando Namora de ter plagiado Vergílio Ferreira na obra "Domingo à tarde", o do "caso Ferreira da Silva", em que o escritor denunciou o meio caldense, quando viveu naquela cidade do centro de Portugal, e o das vezes em que Mário Soares o ajudou financeiramente.
"Pacheco nunca foi tratado com um maldito; nunca foi mal tratado pelos contemporâneos, era mesmo um escritor reconhecido no meio, com prestígio nele e foi sempre muito bem tratado ela Igreja", sublinhou.
Para o sociólogo, o que tornou Luiz Pacheco conhecido foram, sobretudo, as entrevistas já que estas "extravasaram o escritor". Porque foi com elas que transcendeu o meio literário português no qual era conhecido e considerado.
Questionado sobre se considerava importante uma reedição das obras de Luiz Pacheco, João Pedro George admitiu que sim por ser muito difícil encontrar obras do autor no mercado. As que se vão encontrando em alfarrabistas ou leilões chegam a atingir "preços exorbitantes".
"Era sobretudo importante dar a conhecer muitos dos textos inéditos do Pacheco, nomeadamente os que escreveu no diário, que começou a redigir nos anos 1970 até aos anos 1990", disse. É uma tarefa que cabe aos filhos do escritor, observou.
Questionado pela agência Lusa, Paulo Pacheco, filho mais novo de Luiz Pacheco, admitiu a possibilidade de novas obras do pai virem a ser editadas, sobretudo as que respeitam ao diário que escreveu ao longo de cerca de 20 anos.
Admitiu ser uma questão para discutir com uma editora, acrescentando que o processo está atrasado já que existem "oito irmãos espalhados por várias partes do mundo".
Além disso, a habilitação de herdeiros - a declaração legal dos herdeiros do falecido em que se determina a inexistência de quem lhes prefira na sucessão ou concorra com eles - ainda não está feita, acrescentou.
"Puta que os pariu -- A biografia de Luiz Pacheco" teve uma primeira edição de 2.000 exemplares e já foi lançada no mercado uma segunda edição de mil exemplares, disse o autor.
Luiz Pacheco nasceu em Lisboa a 07 de maio de 1925 e morreu no Montijo a 05 de janeiro de 2008.