"Que farei com este livro?", de José Saramago, em Almada

Almada, Setúbal, 21 Nov (Lusa) - A luta de Luís de Camões para redigir e publicar "Os Lusíadas" é retratada na peça "Que farei com este livro?", de José Saramago, em cena a partir de quinta-feira no Teatro Municipal de Almada.

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Depois de Canto e Castro, que foi Camões nesta peça em 1980, cabe agora a Paulo Matos representar a luta travada pelo poeta para completar a sua obra, escrita maioritariamente durante uma viagem à Índia.

Para o encenador da peça, Joaquim Benite, a escolha de Camões para protagonista representa tão só "o paradigma do autor, sempre desprezado na sua época", numa reflexão sobre o carácter "sempre avançado" do artista em relação ao seu tempo.

"O mesmo se passa com a sociedade sebastianista representada na obra, é apenas uma referência de um estado totalitário, de censura, repressão, desprezo e ódio pelos seus artistas e novidades", referiu Joaquim Benite.

"Que farei com este livro?", a segunda obra escrita por Saramago para teatro, depois de "A noite", foi apresentada pela primeira em Almada em 1980.

Da primeira apresentação, pouco se mantém, além do encenador, Joaquim Benite, e de dois actores, Teresa Gafeira e Carlos Santos, o único que representa o mesmo papel de há quase 30 anos, Damião de Góis.

Para o encenador, a cenografia, o guarda-roupa, e até mesmo a leitura do texto, foram diferentes, quase 30 anos depois.

"O primeiro trabalho que fiz - explicou - não correspondia exactamente à leitura que fiz. Os próprios cortes retiraram força ao texto, que agora surge na íntegra, igual ao que Saramago escreveu".

A ideia de apresentar de novo este texto, "que não é uma reposição mas sim uma nova encenação", surgiu de uma conversa entre Benite e Saramago, na qual o escritor sugeriu o regresso ao palco desta sua peça.

É um texto que retrata "um problema que se mantém, o facto de o discurso artístico e cultural ser completamente desprezado", e que hoje, para Joaquim Benite, se reflecte no domínio da televisão, da fidelidade e do lucro.

Outra diferença relativamente ao texto encenado em 1980 é a presença e troca de ideias entre encenador e autor, visto que Saramago ainda não assistiu a qualquer ensaio da peça este ano.

"Em 1980, José Saramago acompanhou quase todos os ensaios. Apesar de não se intrometer, trocámos muitas impressões durante esse período. Agora, ainda não teve oportunidade de vir, mas espero tê-lo cá antes que a peça saia de cena", referiu o encenador.

Com este espectáculo dá-se início às comemorações dos 30 anos da Companhia de Teatro de Almada, que se assinalam em 2008, em simultâneo com os 25 anos do Festival de Teatro de Almada.

A peça estará em cena entre 22 de Novembro e 21 de Dezembro, de quarta-feira a sábado às 21:30 e aos domingos às 16:00.

VYG.


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