O edifício esteve encerrado desde janeiro de 2023 para obras de remodelação, mas o Teatro Nacional Dona Maria II não parou: viajou pelo país com a iniciativa “Odisseia Nacional”. De volta ao Rossio e prestes as comemorar 180 anos de história, abre portas ao público com uma nova encenação de Macbeth – a peça de Shakespeare que estava em cena em 1964, quando deflagrou um incêndio que destruiu o teatro e que levou muitos a acreditar, até hoje, que estava amaldiçoado.
Em visita guiada aos espaços reabilitados do edifício, o arquiteto do projeto de requalificação mostrou que o teatro não parou no tempo, “está sempre em evolução” e que esta intervenção “foi uma oportunidade muito boa para melhorar o desempenho do edifício”.
"O teatro é um edifício que nunca será estático no tempo”, afirmou Francisco Pólvora à RTP Notícias.
No átrio do teatro, que antecede a grande Sala Garrett, sublinhou a melhoria e recuperação dos traços originais da infraestrutura, com mudanças contemporâneas praticamente invisíveis. Esta intervenção, financiada pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), visou a requalificação, o restauro e a renovação de vários espaços do edifício, melhorando a eficiência do teatro no serviço público de cultura.
Este projeto, considerou Francisco Pólvora, “é muito importante porque, de facto, é uma intervenção bastante profunda, embora não seja uma intervenção total”. “É uma intervenção em vários espaços. São muitos espaços espalhados no edifício, mas não é uma intervenção total”, o que aumentou a “complexidade ao projeto e à obra”.
Além da limpeza e recuperação das fachadas do edifício, reformulou-se a zona do átrio, facilitando a entrada no edifício e a circulação nesta área e tornando-a mais acessível e confortável, por exemplo.
“Quisemos, com esta intervenção, criar, recuperar e valorizar os valores patrimoniais existentes – estamos a intervir num edifício que é monumento nacional. E, por outro lado, dar uma nova unidade ao edifício”.
Foi esse o esforço da equipa envolvida neste projeto, composta por mais de 20 especialistas, que teve em consideração o valor arquitetónico e patrimonial e os desafios de ser um monumento nacional, garantindo o respeito, a valorização e a coerência com os elementos pré-existentes do edifício e com a sua história.
Um dos objetivos era implementar soluções que permitissem uma melhoria dos impactos ambientais e de saúde no trabalho, além de uma maior flexibilidade na procura de respostas à constante evolução das diferentes tendências artísticas e das valências e necessidades técnicas que lhes dão suporte.
Nos espaços onde se pretendia “recuperar o ambiente” original, “a intervenção é bastante invisível”.
“Melhorámos o desempenho do edifício, mas de uma forma que não fosse visível, como no caso da Sala Garrett”, explicou o arquiteto.
O objetivo era aproveitar o potencial do espaço e da localização e melhorar a relação entre o interior, o espaço envolvente e o público.
“Tentámos, sempre que possível, (...) tornar o edifício mais aberto para a cidade de Lisboa, favorecer a relação interior-exterior e o contrário no edifício, tornar o edifício mais convidativo e mais aberto e mais democrático (...) para todas as pessoas”.
A bilheteira e a livraria, junto ao átrio do teatro, foram também totalmente renovadas, com vista a melhorar a experiência do público.
Um dos aspetos mais importantes desta intervenção foi a acessibilidade, através da construção de sistemas de plataformas para garantir acesso a pessoas com mobilidade condicionada, foram prolongadas as escadas de acesso e os elevadores do prédio.
Também ao nível de acesso do público, houve “o esforço de criar pavimentos podotáteis para invisuais” e guardas de auxílio nas portas.
Recuperação e valorização patrimonial
Para Francisco Pólvora, responsável pelo projeto de intervenção, o maior desafio foi não se tratar de uma “intervenção integral”. Por isso, “foi muito importante conhecer e estabelecer quais os valores arquitetónicos e patrimoniais a recuperar e a valorizar”.
Inaugurado durante o reinado de Dona Maria II, a 13 de abril de 1846, este teatro foi idealizado e projetado pelo escritor e político da época Almeida Garrett, com o objetivo de criar uma escola de bom gosto e de elevar a cultura do país. O edifício original, em estilo neoclássico, é obra do arquiteto Fortunado Lodi e foi construído no Rossio, em Lisboa, em cima dos escombros da antiga sede da Inquisição, o Palácio dos Estaus.
Num dos espaços mais antigos do Teatro Nacional, o átrio do edifício, Francisco Pólvora recordou este espaço cultural é “uma referência a nível nacional do neoclassicismo de raiz palladiana”. O edifício original, contudo, já foi reconstruído e a infraestrutura melhorada ao longo dos anos.
No “brutal incêndio de 1964”, o edifício foi “totalmente consumido pelas chamas”.“Só sobrevive ao incêndio uma parte do seu espólio e este espaço, onde nos encontramos, do antigo átrio e também as paredes exteriores. Portanto, todo o interior foi consumido pelas chamas”, contou o arquiteto.
Apesar de ter sido reconstruído respeitando o estilo neoclássico do original, foram acrescentadas algumas diferenças em relação à infraestrutura destruída, “nomeadamente, do ponto de vista cénico”, implementando sistemas mais avançados que havia na época.
Recuperação e valorização patrimonial
Para Francisco Pólvora, responsável pelo projeto de intervenção, o maior desafio foi não se tratar de uma “intervenção integral”. Por isso, “foi muito importante conhecer e estabelecer quais os valores arquitetónicos e patrimoniais a recuperar e a valorizar”.
Inaugurado durante o reinado de Dona Maria II, a 13 de abril de 1846, este teatro foi idealizado e projetado pelo escritor e político da época Almeida Garrett, com o objetivo de criar uma escola de bom gosto e de elevar a cultura do país. O edifício original, em estilo neoclássico, é obra do arquiteto Fortunado Lodi e foi construído no Rossio, em Lisboa, em cima dos escombros da antiga sede da Inquisição, o Palácio dos Estaus.
Num dos espaços mais antigos do Teatro Nacional, o átrio do edifício, Francisco Pólvora recordou este espaço cultural é “uma referência a nível nacional do neoclassicismo de raiz palladiana”. O edifício original, contudo, já foi reconstruído e a infraestrutura melhorada ao longo dos anos.
No “brutal incêndio de 1964”, o edifício foi “totalmente consumido pelas chamas”.“Só sobrevive ao incêndio uma parte do seu espólio e este espaço, onde nos encontramos, do antigo átrio e também as paredes exteriores. Portanto, todo o interior foi consumido pelas chamas”, contou o arquiteto.
Apesar de ter sido reconstruído respeitando o estilo neoclássico do original, foram acrescentadas algumas diferenças em relação à infraestrutura destruída, “nomeadamente, do ponto de vista cénico”, implementando sistemas mais avançados que havia na época.
O Teatro Nacional Dona Maria II sofreu ainda algumas “intervenções pontuais”, nos últimos 48 anos, incluindo uma requalificação “de melhor qualidade nos anos 90”.
“O teatro é um edifício vivo e, portanto, está sempre a sofrer obras pontuais”.
“O teatro é um edifício vivo e, portanto, está sempre a sofrer obras pontuais”.
Intervenções invisíveis Sala Garrett
Uma das principais áreas de intervenção no Teatro Nacional Dona Maria II foi a sala de espetáculos, incluindo a atualização de infraestruturas para uma maior funcionalidade e compatibilização mais harmoniosa das instalações técnicas, como luz e som. A Sala Garrett foi pintada e requalificada, deixando os traços originais e substituindo os tecidos e alcatifas.
“Tentámos dar uma nova capacidade, um novo desempenho à sala, corrigindo várias situações que encontrámos e que eram um pouco dissonantes”, disse à RTP Notícias o arquiteto. “Procurámos dar nova dignidade à sala e, ao mesmo tempo, melhorar o seu desempenho”.
O sistema de som foi atualizado, assim como o de iluminação, “mas a maioria das intervenções são invisíveis”.
A remodelação do sistema de palco rotativo e do quadro da mecânica de cena, localizados no palco da Sala Garrett, foram uma das principais e visíveis intervenções.
Uma das principais áreas de intervenção no Teatro Nacional Dona Maria II foi a sala de espetáculos, incluindo a atualização de infraestruturas para uma maior funcionalidade e compatibilização mais harmoniosa das instalações técnicas, como luz e som. A Sala Garrett foi pintada e requalificada, deixando os traços originais e substituindo os tecidos e alcatifas.
“Tentámos dar uma nova capacidade, um novo desempenho à sala, corrigindo várias situações que encontrámos e que eram um pouco dissonantes”, disse à RTP Notícias o arquiteto. “Procurámos dar nova dignidade à sala e, ao mesmo tempo, melhorar o seu desempenho”.
O sistema de som foi atualizado, assim como o de iluminação, “mas a maioria das intervenções são invisíveis”.
A remodelação do sistema de palco rotativo e do quadro da mecânica de cena, localizados no palco da Sala Garrett, foram uma das principais e visíveis intervenções.
“Num primeiro momento, procurámos fazer a recuperação dos tecidos e revestimentos das paredes. Viu-se que não era possível”, acrescentou. “Foram feitas réplicas, (...) muito semelhantes às que existiam, melhorando a sua resistência ao fogo e aferindo controlo acústico da sala”.
A nível da pintura, apostou-se nos contrastes e nas cores mais escuras, destacando assim os ornamentos originais da sala.
“Do ponto de vista cénico, a sala melhora”, concluiu. "A sala tem agora uma maior coerência com o projeto original".
Transformação contemporânea
O Teatro Nacional Dona Maria II é uma referência no que toca a palcos. Mas como o arquiteto deste projeto frisou, o teatro é um espaço vivo e sempre em evolução.
Os três anos de intervenção permitiram não só a requalificação dos espaços já abertos ao público, como ainda a criação de espaços de exposição e de arrumação. Uma das novidades da reabertura do teatro é a inauguração de um espaço para exposições, com a exibição de uma exposição de espólio pelos 180 anos do Dona Maria II.
E como o trabalho de palco não é todo encenado e visível, o projeto priorizou também os espaços de trabalho dos vários serviços.
A antiga Sala de Cenografia, no antigo sótão do edifício, por cima da plateia da Sala Garret, é agora um espaço central de escritórios - desde serviços financeiros e administrativos. Do traço antigo ficou apenas o espaço amplo. O projeto contemporâneo transformou este espaço esquecido num luminoso open space, com pequenas salas de reunião e guarnecido por um jardim de inverno.
O Teatro Nacional Dona Maria II é uma referência no que toca a palcos. Mas como o arquiteto deste projeto frisou, o teatro é um espaço vivo e sempre em evolução.
Os três anos de intervenção permitiram não só a requalificação dos espaços já abertos ao público, como ainda a criação de espaços de exposição e de arrumação. Uma das novidades da reabertura do teatro é a inauguração de um espaço para exposições, com a exibição de uma exposição de espólio pelos 180 anos do Dona Maria II.
E como o trabalho de palco não é todo encenado e visível, o projeto priorizou também os espaços de trabalho dos vários serviços.
A antiga Sala de Cenografia, no antigo sótão do edifício, por cima da plateia da Sala Garret, é agora um espaço central de escritórios - desde serviços financeiros e administrativos. Do traço antigo ficou apenas o espaço amplo. O projeto contemporâneo transformou este espaço esquecido num luminoso open space, com pequenas salas de reunião e guarnecido por um jardim de inverno.
“Era neste espaço que eram pintadas as telas dos cenários”, recordou Francisco Pólvora, acrescentando que, nos últimos anos, a antiga Sala de Cenografia se tornou numa espécie de arrecadação de figurinos e adereços.
Esta modernização do espaço visava “reunir num único espaço” os vários serviços e dar “melhores condições de trabalho aos seus funcionários”.
O jardim de inverno é, admitiu o arquiteto, “o grande protagonista do espaço, que permite criar uma relação direta com o exterior”.
Mantendo a ideia de abrir o teatro ao exterior e à cidade, várias janelas do edifício que estavam há anos emparedadas ou fechadas foram reaproveitadas, sem que se alterasse a fachada exterior.
“Encontrámos várias janelas emparedadas, encerradas para o exterior (...) na obra de 1978”, disse o arquiteto, enquanto mostrava uma das janelas reabertas com vista para o Rossio de Lisboa.
“Encontrámos várias janelas emparedadas, encerradas para o exterior (...) na obra de 1978”, disse o arquiteto, enquanto mostrava uma das janelas reabertas com vista para o Rossio de Lisboa.
A criação de uma nova sala polivalente de apoio à Sala Estúdio, para a realização de ensaios, ações de formação e outras atividades, foi uma das grandes apostas desta intervenção. Assim como a melhoria das condições da sala de costura, que antigamente não tinha iluminação natural.
“Este era um espaço compartimentado e que não tinha janelas para o exterior”, mostrou Francisco Pólvora ao entrar na sala de Costura, onde decorriam trabalhos.
Criou-se um único espaço, mais amplo, e foram abertos três lanternins no telhado, que permitem “dar iluminação e ventilação natural”.
“Este era um espaço compartimentado e que não tinha janelas para o exterior”, mostrou Francisco Pólvora ao entrar na sala de Costura, onde decorriam trabalhos.
Criou-se um único espaço, mais amplo, e foram abertos três lanternins no telhado, que permitem “dar iluminação e ventilação natural”.
A última grande intervenção ocorrida no D. Maria II terminou em 1978, na sequência do incêndio de 1964.
Com o encerramento do edifício, o teatro teve de estender estendeu a programação a todas as regiões do país, assumindo um papel de agente de coesão territorial pela cultura, e intensificou a atividade com a apresentação de espetáculos, projetos de participação, iniciativas para o público escolar, eventos de pensamento, lançamentos de livros, ações de formação e uma exposição.
Com o encerramento do edifício, o teatro teve de estender estendeu a programação a todas as regiões do país, assumindo um papel de agente de coesão territorial pela cultura, e intensificou a atividade com a apresentação de espetáculos, projetos de participação, iniciativas para o público escolar, eventos de pensamento, lançamentos de livros, ações de formação e uma exposição.
Para celebrar este regresso há três dias de festa, a começar esta sexta-feira, que convidam o público a reencontrar um dos espaços culturais mais emblemáticos da cidade de Lisboa.
O regresso do Dona Maria II ao Rossio celebra-se também na rua, com a Praça D. Pedro IV como plateia e a fachada do edifício do D. Maria II como palco, numa festa totalmente aberta à cidade.
O regresso do Dona Maria II ao Rossio celebra-se também na rua, com a Praça D. Pedro IV como plateia e a fachada do edifício do D. Maria II como palco, numa festa totalmente aberta à cidade.