Realizador documenta território que continua desconhecido em Portugal

Macau é um território que continua desconhecido em Portugal, apesar de ter sido colónia portuguesa durante mais de quatro séculos e até há apenas duas décadas, afirmam os autores do filme documental "Macau - 20 anos depois".

Lusa /

Atualmente uma das regiões administrativas especiais da República Popular da China, depois de a administração portuguesa ter passado para a China, no dia 20 de dezembro de 1999, Macau foi administrada por Portugal durante mais de 400 anos, sendo considerada o primeiro entreposto e a última colónia europeia na Ásia.

Apesar disso, falta muita informação aos portugueses e aos macaenses residentes em Portugal sobre Macau, foi o que Carlos Fraga, realizador, e Helena Madeira, produtora, detetaram durante os cinco anos que lhes levou a elaboração de seis documentários, a partir dos quais fizeram a longa-metragem "Macau - 20 anos depois", que se estreia na RTP no dia 19 de dezembro.

"Foi o que detetámos, e foi unânime, todos são da opinião que Macau não é conhecido cá, apesar de todo o tempo que passou e da relação que houve, embora esteja muito longe. E é a isso que eles atribuem um pouco a coisa, a isso e a que politicamente Portugal esteve um pouco de costas para aquilo", disse Carlos Fraga, em entrevista à Lusa.

Esse sentimento de que "Macau não é devidamente conhecido" reforça a utilidade deste trabalho, feito com rigor, com conteúdos e que demonstra uma abordagem possível, que é sociológica e antropológica, explica o realizador.

"Macau -- 20 anos depois" é um apanhado do essencial sobre este período pós transmissão administrativa, retirado de seis documentários feitos anteriormente: "Macaenses em Lisboa -- ilusão ou realidade"; "Portugueses em Macau -- o outro lado da história"; "Dar e receber -- a portugalidade em Macau"; "Interculturalidade -- a lusofonia em Macau"; "Macaenses em Macau -- renovando a identidade"; "Uns e outros -- os chineses de Macau".

"Este trabalho de seis documentários demorou cinco anos a fazer, começámos em 2014 a filmar cá os `Macaenses` e já não parámos até terminar a série", conta Carlos Fraga, revelando que para esta série foram entrevistadas ao todo 85 pessoas.

No entanto, a série não se iniciou como série mas como um documentário sobre os macaenses, ideia que nasceu a partir de um outro documentário sobre os chineses em Lisboa.

Esse filme foi exibido numa universidade perante vários alunos e antropólogos que se ofereceram para colaborar em futuros trabalhos do género e foi assim que nasceu o documentário sobre os Macaenses, também na mesma linha das comunidades que vivem em Lisboa.

A necessidade de ilustrar o que os macaenses diziam quando falavam das suas recordações e das suas saudades levou o realizador e a produtora Helena Madeira a Macau, e dessa experiência nasceu a ideia para os outros temas.

Dessa experiência resultou o conhecimento de que apesar de Macau não ser uma colónia como foram Angola ou Moçambique - porque foi administrada pelos portugueses com a autorização dos chineses e não em resultado de uma conquista -, a relação entre os portugueses e os chineses de Macau era peculiar: não era de colonizador e colonizado, mas também não era "de igual para igual".

"Nem podia ser. Agora, não era violenta a ponto de provocar depois uma reação. Quando se deu a devolução à China, se isso tivesse sido assim, provavelmente estaria a acontecer o que está a acontecer em Hong Kong, portanto, não havia uma repressão", afirmou Carlos Fraga.

No entanto, não tem dúvida de que, apesar de os portugueses não serem considerados colonizadores, "os chineses não tinham grande acesso, ou nenhum, a cargos oficiais e ao Estado que administrava, havia ali uma diferença sem ser hostil".

Carlos Fraga destacou ainda que apesar de a comunidade portuguesa estar bem integrada na sociedade macaense, o que resulta dos depoimentos do filme é que os portugueses viviam muito fechados na sua comunidade, uma realidade que se mantém 20 anos depois da transmissão, com a diferença de que agora é mais estratificado, ou seja, os advogados dão-se com os advogados, os médicos dão-se com os médicos e por aí fora.

A prova de que os portugueses estavam fechados sobre si mesmos é que hoje, por exemplo, "é quando se tem a consciência de que deviam ter aprendido chinês, portanto se não aprenderam é porque a integração era relativa, de alguma maneira não havia essa comunicação da língua".

"Hoje em dia já há o inglês, que facilita a comunicação, mas na altura o inglês não estava tão divulgado e não era tão assumido, hoje em dia as novas gerações falam inglês, e tudo bem, mas isso prova que realmente havia um fosso de comunicação entre os chineses e portugueses", afirmou.

A série de documentários "Macau - 20 anos depois" teve o apoio, entre outros, do Instituto Português no Oriente, da Fundação Jorge Álvares, da Fundação Oriente e da Fundação Macau.

Apesar das queixas quanto a dificuldades técnicas por falta de apoios, o realizador mostra-se satisfeito com o resultado final, afirmando que nas condições em que foi feito, "muito poucas produtoras teriam continuado o trabalho".

"Em termos de apoios financeiros, foi muito escasso, trabalhámos no fio da navalha", revelou Carlos Fraga, confessando tristeza com o facto de por vezes se pôr "o interesse comercial à frente das coisas".

De acordo com cineasta, sempre que apresentava o seu projeto como uma série documental de abordagem antropológica, a maioria das entidades "servia-se do argumento de desinteresse por não ser um produto de massas", justificação que "entristecia" o realizador, por vir de "entidades oficiais com alguma obrigação".

Depois de pronta a série, a Universidade de Macau e o Politécnico de Macau compraram-na por entenderem ser um "produto muito interessante", da mesma forma que a Universidade Católica também já demonstrou interesse, disse.

O Museu de São Roque, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, também comprou a série e vai exibir o documentário dois ("Portugueses em Macau - o outro lado da história"), nos dias 19 e 21 de dezembro.

No dia 19 de dezembro, dia de estreia do filme "Macau - 2º anos depois" na RTP, estreia-se também na Cinemateca o documentário seis ("Uns e outros - os chineses de Macau").

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