Reguengos de Monsaraz é capital ibérica da olaria e do barro a partir de hoje
Dois dos maiores centros oleiros da Península Ibérica, S. Pedro do Corval e Salvatierra de los Barros (Espanha), juntam-se, a partir de hoje, para a Festa Ibérica da Olaria e do Barro, em Reguengos de Monsaraz (Évora).
A iniciativa, promovida pela Câmara Municipal de Reguengos de Monsaraz e pelo Ayuntamiento de Salvatierra de los Barros (na Extremadura espanhola), decorre até domingo, juntando 73 olarias de várias localidades da Península Ibérica.
Nesta 13/a edição, no Parque de Feiras e Exposições de Reguengos de Monsaraz, estão presentes 52 olarias portuguesas, 12 das quais de S. Pedro do Corval, e 21 espanholas, sendo 18 delas oriundas de Salvatierra de los Barros.
Com esta iniciativa, o município alentejano quer promover, turística e culturalmente, uma das mais-valias do concelho, a olaria, com larga tradição em S. Pedro do Corval, onde ainda existem 26 olarias em actividade.
O vice-presidente do município, José Calixto, explicou hoje à agência Lusa que S. Pedro do Corval mantém a "maior concentração de olarias do país", embora, nos últimos anos, algumas tenham encerrado.
"No início da década de 90, tínhamos 33 olarias tradicionais e, hoje, já só restam 26. Ainda é um número considerável, mas as coisas estão difíceis e, por isso, têm havido alguns encerramentos", argumentou.
Segundo o autarca, as dificuldades económicas também se têm feito sentir nesta actividade tradicional, ao mesmo tempo que os artesãos "não se têm conseguido adaptar à evolução do mercado".
"Tem de haver mais alguma agressividade, mas a culpa nem é dos oleiros. As próprias instituições que os apoiam, como as autarquias e as associações, também têm que criar ligações e canais de distribuição", defendeu.
No concelho de Reguengos de Monsaraz foi até desenvolvido um projecto, há poucos anos, designado "Desenhar a Tradição", que envolveu o fabrico de peças de cerâmica, mais modernas e da autoria de designers, pelos oleiros de S. Pedro do Corval.
A parceria foi estabelecida entre o Centro de Formação Profissional para a Indústria da Cerâmica (CENCAL) e entidades locais, estimulando os oleiros a reformular técnicas ancestrais e a "beber" a inovação trazida pelos designers participantes.
"Algumas dessas peças eram mais experimentais, mas outras juntavam as formas tradicionais a um design moderno e eram muito vendáveis. Este projecto deu alguns frutos, mas é preciso fazer com que as pessoas, principalmente das grandes cidades, redescubram o barro e as peças úteis que este material permite conceber", disse José Calixto.
Num concelho em que as primeiras referências à olaria datam de 1276, ano da atribuição do foral afonsino a Monsaraz, então sede do município, Reguengos de Monsaraz não quer deixar "morrer" essa actividade, "importante em termos turísticos", e aposta na conquista de maior mercado por parte dos objectos em barro.
"Temos que ultrapassar a fase do plástico. Os artesãos têm que acreditar mais naquilo que fazem e todos temos que valorizar as potencialidades das peças produzidas, artesanalmente, nesta matéria-prima", afirmou.
O programa da festa prevê para sexta-feira a realização de Jornadas Ibéricas de Olaria e Cerâmica, com a participação de especialistas, investigadores, arqueólogos e artesãos.
Um Festival de Música Popular e Tradicional e um passeio BTT são outras das atracções do certame.