Relações literárias mostram cumplicidades entre Portugal e Espanha
Três universidades lançaram hoje na Covilhã um livro que recupera as relações linguísticas e literárias entre Portugal e Espanha esquecidas ao longo do tempo.
"Há imensas relações, mas foram esquecidas e rasuradas pela natureza antitética dos dois países", disse à Agência Lusa Gabriel Magalhães, um dos nove investigadores que assinam a obra.
"RELIPES - Relações linguísticas e literárias entre Portugal e Espanha desde o início do século XIX até à actualidade" é o título do livro e do projecto que desde 2006 envolve as universidades da Covilhã, Évora e Salamanca (Espanha).
Os dados recolhidos têm sido apresentados em congressos em cada uma das universidades, que culminam com o que decorre até sexta- feira na Covilhã.
"É a primeira vez que se faz uma súmula destas relações entre os dois países, desde o século XIX até hoje. Esta obra é um instrumento de trabalho para investigadores e para quem se interessa pelo relacionamento ibérico", sublinhou Gabriel Magalhães.
De acordo com o docente, "parece que Portugal e Espanha sempre viveram de costas voltadas, mas nunca foi assim. Houve sempre cumplicidade", nas letras, como na vida quotidiana.
Como exemplo, referiu que, no século XVIII, "tempo de todas as distâncias, depois de Portugal ter recuperado a independência em 1640", havia técnicos espanhóis na fábrica têxtil onde hoje funciona a Universidade da Beira Interior.
"Trabalhávamos com espanhóis, que eram especialistas nalguns processos específicos e parte da lã vinha de Espanha", lembrou.
A nível cultural, referiu ainda, "a vida de Camões era muito conhecida em Espanha, havia traduções de obras do Padre António Vieira nas tipografais espanholas".
"No século XIX e XX - prosseguiu -, Eça de Queirós era tão conhecido em Espanha como hoje é Saramago. E é só começar a puxar estes fios que logo aparecem redes de relações".
"A questão - observou - é que os poderes nunca as estudaram.
Acredito que rasuram estas relações inconscientemente, devido ao afastamento entre os dois países. O que estamos a fazer é investigar e apresentar dados, a recuperar essas relações".
O docente da UBI não esconde que preferiria que o projecto RELIPES fizesse convergir os estudos sobre o tema dos dois lados da fronteira e criar uma nova dinâmica nas relações académicas e culturais nas zonas fronteiriças.
Essa é uma meta que "seria muito importante alcançar" para inverter a situação actual em que "as pessoas estão de costas voltadas", disse, por seu lado, Ramiro Fonte, director do Instituto Cervantes.
"Quantas pessoas em Espanha conhecem a extraordinária literatura portuguesa?", questionou.
Na sua opinião, são lidos os "autores da moda", mas não há um aprofundamento do conhecimento cultural entre os dois países.
Como causa desta situação, apontou os factores históricos e observou que, ainda assim, "é maior o interesse de Portugal por Espanha" do que o inverso.
"Gostava - disse a concluir - que em Espanha houvesse mais interesse pela cultura profunda de Portugal. Não se trata de passar férias no Algarve, Lisboa ou Serra da Estrela. Trata-se de conhecer a realidade de vida do país".
O livro que reúne todos os trabalhos do projecto RELIPES vai estar disponível na Internet a partir do próximo dia 23, em www.relipes.net. O projecto foi financiado por fundos europeus através do programa INTERREG para regiões transfronteiriças.