Retrospectiva da obra de escultor predilecto de Hitler gera polémica

Uma retrospectiva sobre a obra de Arno Breker, o escultor predilecto de Adolf Hitler, está a gerar polémica na Alemanha e a colocar intelectuais de esquerda em campos opostos.

Agência LUSA /

Na primeira exposição de obras de Breker desde a II Guerra Mundial (1939-1945), intitulada "O Escultor Arno Brecker em Debate", são apresentadas no Museu Nacional de Schwerin, a partir de 22 de Julho, 70 peças da colecção privada da sua viúva.

A retrospectiva já tinha sido agendada para 2005, mas foi adiada para não coincidir com as comemorações do 60/0 Aniversário do Fim da II Guerra Mundial.

O Curador da exposição, Rudolf Conrades, da Casa de Schleswig-Holstein, uma prestigiada instituição do mundo das artes, afirmou que o objectivo principal da Mostra é precisamente "provocar um vivo debate sobre Breker e a sua obra".

Simultaneamente, lembrou que o artista foi membro de um importante grupo de jovens escultores e que o pintor berlinense Max Liebermann, judeu proscrito pelos nazis, o escolheu para fazer a sua máscara fúnebre.

Durante a guerra, Breker teve a sua fase classicista, comprometida pelo envolvimento com os nazis, mas mais tarde o seu trabalho voltou a ser admirado em muitos círculos.

Políticos destacados como Ludwig Erhard e Konrad Adenauer, chanceleres da Alemanha Federal no pós-guerra, posaram para ele.

O presidente da Academia das Artes, o social- democrata Klaus Staek, pronunciou-se, no entanto, contra a retrospectiva, afirmando tratar-se da "reabilitação de um colaboracionista" do regime nazi.

Já o escritor Gunter Grass, Prémio Nobel da Literatura e figura de proa da esquerda alemã, apoiou a iniciativa, considerando-a "um contributo para debater a História Alemã".

Segundo Grass, se a retrospectiva de Breker mostrar o conjunto da sua obra, "poderá apresentá-lo como um sedutor, mas também como um oportunista".

Breker, que faleceu em 1991, aceitou encomendas do regime hitleriano, e foi o autor das célebres esculturas de nus clássicos e musculosos, ou de esbeltas arianas que caracterizaram a estética nazi e alimentaram o culto nacional-socialista da "raça superior".

O artista alemão foi sempre uma figura controversa e chegou a ser considerado pelo pintor Salvador Dali, também ele muito contestado por alguns sectores, "um dos escultores mais importantes do século XX".

Outros intelectuais, no entanto, acham que Breker não passou de um mero simpatizante do nazismo, sustentando que a sua obra não tem qualquer valor artístico.

Breker, incontestavelmente um dos mais conhecidos escultores da era nazi, foi amigo pessoal, quer de Adolf Hitler, quer do arquitecto-chefe do III Reich, Albert Speer.

As suas esculturas mais conhecidas são "O Decatlonista" e a "Vencedora", ainda hoje expostas no perímetro do estádio Olímpico de Berlim.

As duas obras foram concebidas para as Olimpíadas de 1936, na capital alemã, já sob o signo do nazismo e da inteira submissão a Hitler, que, pouco depois da sua chegada ao poder, em Janeiro de 1933, suprimiu gradualmente a democracia na Alemanha.

Breker, que certa vez disse ser seu único objectivo "enaltecer sempre a beleza do corpo humano", mereceu rasgados elogios das altas figuras do regime nacional- socialista, que a História há muito condenou.

Hitler ofereceu-lhe uma propriedade rural em Jaeckelbruch, na região de Brandeburgo, e mandou pagar-lhe um salário anual de um milhão de Reichsmark.

As suas esculturas monumentais adornam muitas construções nacional-socialistas, como o perímetro dos Congressos do partido nazi, em Nuremberga, mas a maior parte foi destruída durante a II Guerra Mundial.

Em 1981, já com 81 anos, Breker fez a seguinte declaração: "Reconheço ter servido um regime cujos crimes, cuja desumanidade, cuja baixeza não reconheci conscientemente, mas também não apoiei".

O escultor voltou a estar na berlinda recentemente, durante o Mundial de Futebol na Alemanha, quando várias personalidades exigiram que as suas obras fossem retiradas da área do Estádio Olímpico de Berlim, onde se realizaram vários jogos, incluindo a final, entre a Itália e a França.

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