Rita Blanco e Ruben Alves na Grande Entrevista. Perda da identidade de Lisboa "já é uma realidade" mas "não é inevitabilidade"

Rita Blanco e Ruben Alves na Grande Entrevista. Perda da identidade de Lisboa "já é uma realidade" mas "não é inevitabilidade"

É um dos traços da identidade de Lisboa: os casamentos de Santo António mobilizam por alturas de junho casais que escolhem dar o nó com a bênção do Santo padroeiro de Lisboa. Foi a partir desta tradição que o realizador Rúben Alves decidiu criar o seu novo filme, "Santo António, o Casamenteiro de Lisboa", que estreia por estes dias nas salas de cinema de todo o país e conta com a atriz Rita Blanco.

RTP / Adicionar como fonte informativa
Foto: RTP

Nas duas horas de duração, o filme coloca-nos perante temas como a memória, modernização, a pertença e a forma como as cidades decidem aquilo que querem preservar e o que estão dispostas a deixar para trás, em nome do progresso.

O realizador e a atriz foram os convidados desta quarta-feira na Grande Entrevista da RTP, com o jornalista Vítor Gonçalves.

Os casamentos de Santo António atraíram Ruben Alves por serem “uma tradição única” que data dos anos 1950. Já Rita Blanco nunca se interessou “de forma nenhuma” pelo tema. “Nem sou rapariga de me casar, nunca me casei”, apesar de já ter sido pedida em casamento mais do que uma vez, contou.

Mas o tema de fundo do filme é o confronto entre modernidade e tradição, tal como a solidão. “As pessoas estão muito sozinhas”, disse Ruben. “Podes estar rodeado de milhares de pessoas e sentes-te muito sozinho”.

Rita Blanco frisou que a perda da identidade de Lisboa “já é uma realidade” e não apenas um risco. “Outras grandes cidades, como Paris por exemplo, têm imensos turistas” mas “nunca deixaram de ter os seus restaurantes, os seus cafés, as suas características e a sua própria identidade”, afirmou.

Para a atriz, “nós, ao deixarmos que as outras culturas nos envolvam e não termos nada em troca, que é a nossa identidade e a nossa cultura, não tem interesse nenhum. Qualquer dia as pessoas vêm aqui como se fosse outro sítio qualquer”.

“Já para não falar de outras coisas mais graves, como as pessoas que foram todas desalojadas da sua cidade, onde viviam e tinham as suas histórias, as suas famílias, os seus passados”, acrescentou.

Isto não é “uma inevitabilidade”, “podemos mudar as coisas, torná-las melhores. Os espanhóis, ao nosso lado, são muito ciosos das suas tradições”, exemplificou.

Rita Blanco vincou ainda que em Portugal “já não há tasquinhas, não há cafezinhos”, algo de que diz sentir falta enquanto lisboeta, apesar de ter feito a escolha de sair da “cidade branca” para manter as suas recordações intactas.

Já Ruben Alves, que nasceu em Paris, comprou casa na capital portuguesa há vários anos “por amor” à cidade, mas lembrou que esta estava então “muito abandonada”.

“As pessoas desertaram” e agora temos de pensar “o que queremos para a nossa cidade”, afirmou. João Canijo foi “a pessoa mais marcante” da vida de Rita Blanco
Rita Blanco disse ainda que não vai “superar nunca” a morte de João Canijo, com quem teve uma relação profissional e pessoal forte. “Não tenho sequer intenção de desistir da dor. Esta dor é para sempre”, confessou.

“Foi certamente a pessoa mais marcante da minha vida”, disse, falando numa “dupla imbatível”. “Até porque nos construímos juntos no trabalho e na maneira de olhar para o mundo. Ele ensinou-me imensas coisas”. Guião baseado no livro “O Retorno” já foi entregue a produtora
Rita Blanco contou ainda que o guião escrito a partir do livro “O Retorno”, de Dulce Maria Cardoso, já “foi entregue a uma produtora para começarmos a pensar na possibilidade, desde que tenhamos apoios, de se fazer esse filme”.

“É um guião imaculado”, assegurou.

A atriz disse não ter fascínio por ser realizadora, mas assumiu que gosta “imenso” do livro “O Retorno” e que este apresenta um tema “mais do que atual”.
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