Romance sobre a Marquesa de Alorna traz a lume cartas inéditas
Lisboa, 11 out (Lusa) -- A marquesa de Alorna, que literariamente assinava como Alcipe, sempre fascinou Maria João Lopo de Carvalho que decidiu escrever a sua história, num romance que traz a lume algumas cartas inéditas da poetisa.
"Marquesa de Alorna. Do cativeiro em Chelas à corte de Viena" é o título daquele que é o primeiro romance histórico de Maria João Lopo de Carvalho, autora de cerca de 50 títulos, entre romances, livros infanto-juvenis e contos, que em declarações à Lusa afirmou que o objetivo foi "fazer um trabalho sério".
A obra, editada pela Oficina do Livro, tem cerca de 700 páginas e pesa um quilograma. "É um trabalho de peso", comentou a rir-se a autora que desde menina se sente fascinada pela figura de D. Leonor de Almeida Portugal, até pelo facto de viver numa das quintas que pertenceu à marquesa.
"Todos nós da família tínhamos curiosidade sobre a marquesa, porque é que ela gostava tanto daquela quinta, onde escreveria os seus poemas, etc.", contou.
"Eu tinha mais uma curiosidade intelectual, por vezes quando descia as escadas, ou estava no quarto que foi o dela, parava a cismar no que pensaria a marquesa quando ali vivia", acrescentou.
O projeto levou precisamente um ano a redigir, de agosto de 2010 a agosto de 2011, depois de uma "investigação de anos" que a escritora fez, para se colocar ao corrente do quotidiano de transição do século XVIII para o XIX, o período que a marquesa viveu, e também para ler parte da sua correspondência.
A autora escolheu as cartas que "dizem mais respeito ao quotidiano" da marquesa e "à vida familiar" e optou por as editar "para melhor perceberem aquela linguagem muito marcante do século XVIII", justificou.
"Do que há na Torre Tombo, um espólio de mais de 170 pastas, eu li cerca de 10 por cento, há ainda muito para descobrir. Aproveitei para editar cartas que estavam inéditas. Ao fim de algum tempo, depois das dificuldades iniciais, já conhecia a caligrafia da marquesa onde quer que a encontrasse", disse.
D. Leonor de Almeida Portugal Lorena e Lencastre (1750-1839) foi a quarta marquesa de Alorna, sucedendo ao irmão, e a mulher que Napoleão considerou a sua "pior inimiga".
Para Maria João Lopo de Carvalho a ideia do romance foi "tornar simples uma história que é muitíssimo complicada e uma vida cheia vivida numa transição de séculos, numa altura de grandes conturbações na Europa".
"A marquesa que foi uma figura relevante da literatura portuguesa, viveu 89 anos!", desabafou. "Uma vida fascinante e paradoxal, pois ela era uma mulher contraditória, até porque vai evoluindo. Logo em pequena se percebe que tem génio e é muito senhora do seu nariz, tem uma visão orgulhosa relativamente à família e ao país", referiu.
"Quando está mais velha chega a ser insuportável", acrescentou.
"Com a idade aumenta o autoritarismo mas também a plena consciência do valor intelectual que tinha, pois mesmo no seu meio aristocrático e informado ela sobressaía", argumentou.
Maria João Lopo de Carvalho afirmou à Lusa que, ao longo deste romance, procurou "usar as palavras da marquesa" e "enquadrá-la historicamente para que melhor a compreendam".
"Era uma mulher que estava muito à frente como hoje dizemos, marcada desde muito cedo por uma grande curiosidade intelectual", afirmou.
Reconhece que a poesia de Alcipe "não é fácil, dadas as muitas referências clássicas, mas é fascinante como [ela] construía de forma tão rápida rimas de improviso e sonetos perfeitos, e toda a sua vivência tornam-na uma personagem riquíssima".
Sobre o romance considera que procurou "contar uma história de forma fácil, [para] que conheçam a marquesa, e também a História de Portugal naquele período concreto".
"Nesse sentido o romance divide-se em quatro fases da sua vida: enquanto só Leonor, como Alcipe, o pseudónimo como poetisa, como condessa de Oyenhausen, quando casou, e no final da vida como marquesa de Alorna".
Com este romance, Maria João Lopo Carvalho doravante "pretende dar luz a muitas mulheres que foram injustamente esquecidas pela História como Luísa Tódi, Maria Amália Vaz de Carvalho e Luísa de Sigea".