"Rosinha dos limões" tema de tese universitária

O percurso de Artur Ribeiro, autor de mais de 1.000 letras de fados e canções, entre as quais "Nem às paredes confesso", é objecto de uma tese de doutoramento que será defendida na quinta-feira na Universidade Nova de Lisboa.

Agência LUSA /

A tese, de autoria de Regina Gonçalves, intitula-se "Fiz leilão de mim: A carreira de Artur Ribeiro no Portugal do Estado Novo", um título que recupera um poema de sua autoria que Max popularizou.

Ainda recordado como cançonetista de sucesso no princípio da década de 1960 e na seguinte como fadista, Artur Ribeiro seguiu uma carreira que "obedeceu às regras do Estado Novo sob o qual se desenvolveu", explicou à Lusa a investigadora Regina Gonçalves.

"Das 1.000 letras declaradas na Sociedade Portuguesa de Autores nenhuma foi cortada ou mexida pela Censura política que vingou em Portugal até ao 25 de Abril de 1974", disse a investigadora.

Para Regina Gonçalves, Artur Ribeiro "esforçou-se por ser aceite por todos".

"Artur Ribeiro - referiu - é um poeta popular, sendo a mulher o tema mais abordado, e há alguns poemas de carácter mais autobiográfico, nomeadamente `Fiz leilão de mim` e `Eu nasci amanhã`".

Artur Ribeiro assinou letras que ainda hoje são cantadas, nomeadamente "Rosinha dos limões", "A fonte das sete bicas", "Sete saias", "Cachopa do Minho", "Pauliteiros do Douro", "Adeus Mouraria", ou "Lisboa à meia-noite".

Em declarações à Lusa, a investigadora afirmou que a sua tese procura compreender "uma drástica mudança que aconteceu a dada altura no repertório de Artur Ribeiro".

"O repertório do artista entre 1949 e 1966 - explicitou - é diferente do período 1967 a 1978. Pareceu-me interessante descobrir porquê. Para perceber as razões dessa mudança decidi observá-las em vários contextos em relação ao indivíduo, e em relação à sociedade".

Artur Ribeiro escreveu essencialmente entre 1949 e 1978, dividindo-se a sua produção em música ligeira, a que o próprio autor chamou "diversos" (canção popular, marchinha, bolero, samba, "slow", valsa e baião) e canções regionais (rabela, bailinho, vira, baile de roda, chula e "fado-canção"), isto entre 1949 e 1967, precisou a investigadora.

A partir de 1967 e até 1978 compôs quase exclusivamente "fado tradicional".

Em finais da década de 1960, Artur Ribeiro "perde popularidade na rádio e desloca-se para Madrid onde vai dirigir artisticamente e cantar num restaurante".

"Regressa então a Lisboa onde faz todo o seu percurso nas casas de fado e daí a sua opção por escrever essencialmente para fado tradicional", referiu.

A pesquisa de Regina Gonçalves levou-a a procurar a família de Artur Ribeiro e a falar com várias pessoas que o conheceram, mas também, num plano "mais ortodoxo", a arquivos e bibliotecas.

Contava analisar apenas a carreira fadista de Artur Ribeiro, mas, com o avançar da investigação, optou por "uma abordagem do seu perfil biográfico e artístico que se enquadra do Estado Novo".

A defesa de tese será quinta-feira no Auditório 1 da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, sendo o júri académico constituído por Salwa Castel-Branco, João Soeiro Carvalho, que foi seu orientador de tese, e Susana Sardo.

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