"Salvar a Maggie", uma campanha para "doar" cinema ambulante em Àfrica

"Salvar a Maggie", uma campanha para "doar" cinema ambulante em Àfrica

Uma campanha de `crowdfunding` (financiamento colaborativo) está a decorrer até março com o objetivo de voltar a levar cinema ambulante a África, disse à Lusa João Meirinhos, o único português envolvido no projeto "Salvar a Maggie".

Lusa /

A iniciativa é do Cinéma du Désert, associação fundada por dois italianos, que, entre 2015 e 2020, percorreu três continentes (Ásia, África e Europa) e cerca de 100.000 quilómetros, levando o cinema aos lugares mais distantes, atravessando desertos e comunidades sem acesso, com um antigo camião dos bombeiros, "Maggie", transformado e equipado para este efeito.

A epidemia da covid-19 obrigou ao repatriamento da equipa e o camião ficou parado na Costa do Marfim, num lar de freiras, mas o projeto não ficou esquecido e procura agora apoio financeiro para devolver a luz do cinema ao continente africano.

"Fizemos um orçamento de 6.500 euros [para a reparação mecânica do camião]. Um filtro do óleo, uma peça de motor" ou um simples parafuso, toda a ajuda é bem-vinda, explica o antropólogo visual João Meirinhos. 

"Marcámos tudo em 6.500 euros em termos de arranjo mecânico do camião, a gasolina para a `tour` [viagem] e uma espécie de fundo de maneio [mais 1.000 euros] caso aconteça alguma coisa", detalha. 

A campanha de `crowdfunding` pode ser acompanhada através da plataforma produzioni dal basso - https://www.produzionidalbasso.com/project/adotta-una-maggie-cultura-e-gioia-on-the-road/ -, onde cada etapa do projeto está discriminada.

"Só com visibilidade é que também podemos sonhar mais alto, e porque o grande objetivo não é só mostrar filmes gratuitos em locais isolados no mundo, mas passar mais tempo, ter o privilégio e o luxo do tempo, só passando uma semana, duas semanas numa comunidade é que se compreende que necessidades é que eles têm, portanto, o cinema é uma porta de entrada", explica.

Criar comunidade e pedir ajuda é também um apelo e um desafio para o português que pretende desmistificar a ideia de um projeto aventureiro e "excêntrico".

"Para além do camião, que é complexo um pouco, mostrar cinema num local não custa nada, portanto é também um apelo para que façam, ou seja, não glorifiquem algo como excêntrico, qualquer pessoa pode pegar um projetor e estender um lençol e criar um cinema na sua comunidade, para a sua comunidade, para falarem, para estarmos juntos", desafia.

O objetivo é agora doar a "Maggie" a uma associação africana que prolongue a aventura, após uma última expedição na África Ocidental que parte da Costa do Marfim, passa pelo Gana, Togo, e termina no Benim, com início previsto para o mês de março.

Para tal, juntaram-se a um projecto internacional de agroecologia - FiBL (The Research Institute of Organic Agriculture)- que através do documentário La Veine Verte (A Via Verde) promove o desenvolvimento sustentável em África.

"Nesta fase atual, podemos dizer que o projeto avança para uma orientação mais política, ou seja, deixou para trás aqueles primeiros anos em que o objetivo era mostrar a luz do cinema a pessoas que nunca tinham tido acesso", conta.

"Sem dúvida que no início a mensagem política era semelhante a divertimento, também é saudável, no entanto agora também queremos retirar a nossa presença (...) e fortalecer, deixar a uma associação de africanos interessados em progredir com o projeto (...), doar o camião, doar o projetor, ensinar a fazer coisas básicas, tanto de mecânica quanto até de sacar um filme, se for necessário, para depois ver como é que eles utilizam esses mecanismos".

Através da campanha "Salvar a Maggie", o sonho é o limite: "nós achamos que ela merece continuar o seu caminho, especialmente em África, pretendemos que ela continue a exibir cinema em África, ou a ter alguma relevância sociocultural, ou comunitária, ou de acolhimento, algum uso que os locais lhe queiram dar, esse é o nosso próximo passo".

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