Saramago doutor honoris causa da Universidade Autónoma Madrid
O escritor português José Saramago foi hoje investido doutor "honoris causa" da Universidade de Madrid numa cerimónia em que se testemunhou o reconhecimento pela sua obra, pelo seu "empenho" e pelo "muito que ensina como ser humano e sobre o mundo".
Apadrinhado por Tomás Albaladejo, catedrático de Teoria da Literatura e Literatura Comparada da UAM, Saramago recebeu na cerimónia o Barrete de laureado, distintivo do magistério, o anel da antiga universidade, as luvas brancas e o Livro da Ciência.
No seu discurso de investidura, o escritor, apresentando-se como um "homem real" e uma "simples pessoa", agradeceu a honra da investidura, explicando que a sua ligação já existente com a UAM fica hoje "muito mais reforçada".
Aludindo ao papel da alegoria na sua obra, identificou o seu livro "Ensaio sobre a Cegueira" como um momento de viragem a partir do qual passou de trabalhos mais realistas, em que a história portuguesa e a identidade colectiva eram "os sujeitos principais", para obras mais alegóricas.
"Até ao `Evangelho Segundo Jesus Cristo` não terei feito mais do que andar a escrever estátuas. Com o `Ensaio sobre a Cegueira` encontrei-me como se estivesse a olhar para o interior da estátua, lá onde a pedra, se alguma coisa sabe, saberá que é pedra, mas não que é estátua", disse ainda.
Para o escritor português evidencia-se uma mudança profunda no que é o romance, cujas funções antigas são "agora assumidas pela televisão" e que hoje é um espaço literário "cada vez mais aberto ao ensaio, à filosofia, à ciência, à poesia e ao drama".
"Eu, no fundo, não invento nada. Sou apenas alguém que se limita a levantar uma pedra e a pôr à vista o que está por baixo. Não é minha culpa se de vez em quando me saem monstros", disse.
Defendendo a investidura, Tomás Albaladejo destacou o papel de Saramago como "leitor e ouvinte atento" que "ama a palavra que ouve e a palavra que lê", alguém que "escreve da maneira que se lê e que se ouve" e um autor de uma "obra ampla e intensa, vital e comprometida".
Para Albaladejo, o Premio Nobel é um escritor que usa o romance como um espaço literário "onde cabem conteúdos diversos, incluindo contraditórios e onde entram a filosofia, a poesia e a ciência", espaço onde o autor "dialoga consigo próprio, com os outros e sobretudo com o leitor".
Contador nato de histórias, Saramago é, para o catedrático espanhol, um homem "coerente tanto nas suas obras como na posição perante o mundo e a sociedade", cujos romances oferecem "uma ampla visão da realidade, da condição humana, dos seus problemas".
"O compromisso de Saramago é um compromisso complexo, um compromisso literário que não pode deixar de estar unido ao seu compromisso social e político", frisou, recordando palavras do próprio Saramago, que, em 2006, disse que "não tem o poder de mudar o mundo" mas "tem o poder de dizer que é necessário mudar o mundo".
A investidura do grau de doutor honoris causa a Saramago é particularmente importante por ocorrer na UAM, um dos espaços universitários onde o ensino da língua portuguesa em Espanha tem maior destaque, mercê da instalação de um novo Centro de Língua Portuguesa, inaugurado em Novembro do ano passado e que apoia os cerca de 300 alunos de língua e literatura portuguesa daquela instituição.
O centro é dirigido por Filipa Paula Soares, antiga leitora do instituto Camões em Madrid e que hoje foi madrinha de Saramago no acto de investidura.
Em declarações à Lusa, a docente explicou que Saramago é um escritor aplaudido em Espanha e estudado profundamente na UAM, nomeadamente pelos alunos de Teoria da Literatura que o consideram "um referente".
"Espanha - assinalou - gosta muito de Saramago como pessoa e como escritor, conhece bem a sua obra. É um nome muito querido aqui".
"Para nós - disse ainda - é muito importante, e para a língua e cultura portuguesas na Universidade Autónoma é de facto um reconhecimento extremamente importante que um escritor receba este doutoramento".