Cultura
Sartre avisou Academia Sueca que não devia atribuir-lhe o Nobel
A partir do início de 2015 tornou-se acessível uma carta de Jean-Paul Sartre à Academia sueca, advertindo-a de que não deveria atribuir-lhe o Prémio Nobel da Literatura para 1964. A Academia já tinha decidido e não reconsiderou. Sartre recusou o prémio.
Com o final do ano de 2014, a Academia sueca que atribui o Prémio Nobel abriu, como sempre faz, os seus arquivos com 50 anos, podendo portanto ser consultada uma carta que Sartre lhe tinha escrito, com data de 14 de outubro de 1964, recomendando que não lhe fosse atribuído o prémio. A carta, até agora desconhecida, é hoje referida pelo diário britânico The Guardian.
Na carta, Sartre apresenta argumentos contra a atribuição do prémio, que depois tornou públicos quando ele efectivamente lhe foi atribuído. Ao recusá-lo, como havia anunciado na carta até agora desconhecida, Sartre explicou os motivos da recusa.
Sabe-se hoje que a discussão sobre a escolha do laureado desse ano foi renhida, e que, entre os 76 candidatos desse ano, vários membros do júri se inclinavam pelo escritor soviético Michail Cholokov, o autor de "O Don tranquilo", que viria a receber o prémio no ano seguinte. Mas a discussão ficou concluída em 17 de setembro e Sartre, que desconhecia esse processo, apenas enviou a carta a 14 de outubro. Não pode saber-se o que teria acontecido se a carta chegasse antes de resolvido o dilema do júri.
Ao anunciar a atribuição do prémio, contra a vontade de Sartre, a Academia disse atribuí-lo "por o seu trabalho, rico em ideias e repleto do espírito da liberdade e da busca da verdade, ter exercido uma influência de grande fôlego na nossa época".
Sartre recusou então o prémio, como na carta anunciara que tencionava fazer. Mais tarde explicou que "um escritor que adopta posições políticas, sociais ou literárias deve agir apenas com os seus próprios meios - isto é, com a palavra escrita". Por isso, acrescentava, "todas as honrarias que possa receber sujeitam os seus leitores a uma pressão que não considero desejável".
Por outras palavras, dizia também Sartre, "o escritor que aceite uma honra deste tipo compromete-se a si próprio bem como à instituição que o distinguiu (...) O escritor deve portanto recusar deixar-se transformar numa instituição, mesmo que isso suceda nas circunstâncias mais honrosas, como é o caso". Sartre lembrou, neste contexto, que sempre tinha recusado todas as distinções, nomeadamente, em França, a Legião de Honra.
Mas havia ainda o problema do dinheiro - uma quantia muito avultada, que em 1964 se cifrava em 250.000 coroas suecas. Sartre confessou-se, a esse respeito, "torturado" por um dilema: "Ou se aceita o prémio e com o dinheiro do prémio se pode apoiar organizações ou movimentos que se considera importantes - e os meus pensamentos iam para o comité contra o apartheid, em Londres. Ou então recusa-se o prémio em nome de princípios generosos, e desse modo priva-se esse movimento de um apoio que lhe faz muita falta".
Sartre acabou por resolver o dilema recusando o dinheiro: "Acho que é um falso problema. Obviamente recuso as 250.000 coroas, porque não quero ser institucionalizado nem a Leste nem a Ocidente. Mas por outro lado, não podem pedir-me que renuncie, por 250.000 coroas, a princípios que não são só meus, mas que são partilhados por todos os meus camaradas. Foi isso que tornou tão doloroso para mim, tanto a atribuição do prémio como a recusa que me vi obrigado a opor-lhe".
Na carta, Sartre apresenta argumentos contra a atribuição do prémio, que depois tornou públicos quando ele efectivamente lhe foi atribuído. Ao recusá-lo, como havia anunciado na carta até agora desconhecida, Sartre explicou os motivos da recusa.
Sabe-se hoje que a discussão sobre a escolha do laureado desse ano foi renhida, e que, entre os 76 candidatos desse ano, vários membros do júri se inclinavam pelo escritor soviético Michail Cholokov, o autor de "O Don tranquilo", que viria a receber o prémio no ano seguinte. Mas a discussão ficou concluída em 17 de setembro e Sartre, que desconhecia esse processo, apenas enviou a carta a 14 de outubro. Não pode saber-se o que teria acontecido se a carta chegasse antes de resolvido o dilema do júri.
Ao anunciar a atribuição do prémio, contra a vontade de Sartre, a Academia disse atribuí-lo "por o seu trabalho, rico em ideias e repleto do espírito da liberdade e da busca da verdade, ter exercido uma influência de grande fôlego na nossa época".
Sartre recusou então o prémio, como na carta anunciara que tencionava fazer. Mais tarde explicou que "um escritor que adopta posições políticas, sociais ou literárias deve agir apenas com os seus próprios meios - isto é, com a palavra escrita". Por isso, acrescentava, "todas as honrarias que possa receber sujeitam os seus leitores a uma pressão que não considero desejável".
Por outras palavras, dizia também Sartre, "o escritor que aceite uma honra deste tipo compromete-se a si próprio bem como à instituição que o distinguiu (...) O escritor deve portanto recusar deixar-se transformar numa instituição, mesmo que isso suceda nas circunstâncias mais honrosas, como é o caso". Sartre lembrou, neste contexto, que sempre tinha recusado todas as distinções, nomeadamente, em França, a Legião de Honra.
Mas havia ainda o problema do dinheiro - uma quantia muito avultada, que em 1964 se cifrava em 250.000 coroas suecas. Sartre confessou-se, a esse respeito, "torturado" por um dilema: "Ou se aceita o prémio e com o dinheiro do prémio se pode apoiar organizações ou movimentos que se considera importantes - e os meus pensamentos iam para o comité contra o apartheid, em Londres. Ou então recusa-se o prémio em nome de princípios generosos, e desse modo priva-se esse movimento de um apoio que lhe faz muita falta".
Sartre acabou por resolver o dilema recusando o dinheiro: "Acho que é um falso problema. Obviamente recuso as 250.000 coroas, porque não quero ser institucionalizado nem a Leste nem a Ocidente. Mas por outro lado, não podem pedir-me que renuncie, por 250.000 coroas, a princípios que não são só meus, mas que são partilhados por todos os meus camaradas. Foi isso que tornou tão doloroso para mim, tanto a atribuição do prémio como a recusa que me vi obrigado a opor-lhe".