Seria "muito violento viver" se não existisse morte
A possibilidade de a morte, sendo uma fatalidade, ter benefícios é encarada por José Saramago no novo romance, "As Intermitências da Morte", que problematiza as vantagens e os inconvenientes de uma vida eterna na Terra.
"Este é um livro sério, porque a morte é um assunto perante o qual temos de adoptar uma atitude séria, e julgo que é um livro muito humano, que, de certo modo, faz uma reflexão filosófica sobre a vida", explicou o autor à Agência Lusa.
Para o escritor galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1998, a Humanidade tem vivido "na ilusão de uma possível eternidade, mas a verdade é que seria muito violento viver se não houvesse a esperança de deixar de o fazer um dia", ou seja, "se existisse a obrigação de viver para sempre, sem a hipótese de um fim".
Apesar do tema, o livro, escrito num registo por vezes irónico e até divertido, questiona outros aspectos da longevidade do ser humano num momento em que a ciência e a tecnologia se aliam para aumentar a esperança de vida.
"Quais as implicações de uma vida mais longa? Quanto tempo passaria a durar a velhice? Em que se tornaria o corpo humano?", questiona o escritor, acrescentando que, mesmo a nível social, a situação seria dramática: "Como se pagariam então as reformas, problema que já agora se coloca?".
Quanto à relação do Homem com a morte, José Saramago considera que não tem mudado "nem com guerras, nem com ameaças terroristas", apesar de estas poderem tornar mais próxima a ideia de morte colectiva, isto é, a morte de um grande número de pessoas.
"Para nós, a morte é, em primeiro lugar, a morte dos outros, sendo tanto mais sentida quanto mais perto esse outro estiver de nós.
Porém, a morte dos outros é encarada como lógica e natural, enquanto a nossa própria morte é vista como uma injustiça", considerou.
No novo romance de Saramago a morte interrompe as suas funções durante alguns meses, gerando inquietações nos políticos e responsáveis religiosos, nos hospitais, asilos, companhias de seguros e agências funerárias, e, ao assumir um corpo de mulher, apaixona-se.
Apesar de, na ficção, este facto poder mudar o destino de pelo menos uma personagem, o escritor afirmou à Lusa que, no mundo real, "o amor alimenta a vida, mas nada pode fazer contra a morte".
"Na morte de uma pessoa, ou de um animal, o pior para quem sobrevive é a ausência, a sensação de um `ter estado e já não estar` e o saber-se que o que aconteceu é irreversível", declarou o autor de "O Ano da Morte de Ricardo Reis", acrescentando que esse vazio "é muito duro de enfrentar".
"As Intermitências da Morte" surge menos de ano e meio depois do último romance do escritor e em vésperas de Saramago completar 83 anos (16 de Novembro) e vai ser lançado no Teatro Nacional São Carlos, em Lisboa, no próximo dia 11, com a presença de editores de vários países.
O livro, cuja ideia inicial surgiu ao autor a 01 de Novembro de 2004, véspera do Dia de Finados, é publicado em Portugal pela Editorial Caminho com uma primeira tiragem de 100 mil exemplares e terá uma sessão de apresentação prévia a 09 de Novembro, no Instituto Piaget de Viseu.
Com a atribuição do Nobel da Literatura a José Saramago, as tiragens das suas obras em Portugal subiram das 40 mil para as 70 e 80 mil cópias e as traduções multiplicaram-se, assim como os doutoramentos `honoris causa`, que já ultrapassam as três dezenas.
O escritor encontra-se actualmente editado em mais de 30 países, nos quais se incluem Dinamarca, Suécia, Rússia, Turquia, Albânia, Eslovénia, Sérvia, Roménia, Macedónia, Síria, Tailândia, Emirados Árabes Unidos, Colômbia, Argentina e Estados Unidos.
José Saramago nasceu na Azinhaga, concelho da Golegã, em 1922, e passou por vários jornais, entre eles o Diário de Notícias, cuja direcção integrou logo após o 25 de Abril de 1974, tendo-se estreado na literatura com "Terra do Pecado", em 1947.
Actualmente, com quase 40 títulos publicados, entre romance, teatro e diário, tem no currículo, além do Prémio Nobel da Literatura, o Grande Prémio APE (1991) e o Prémio Camões (1996), entre outras distinções.