Sex Pistols juntam-se em Londres 30 anos após "Never mind the Bollocks"
A banda punk britânica "Sex Pistols" voltou a juntar-se para dar um concerto esta noite na Brixton Academy, em Londres, o primeiro de uma curta série de cinco, 30 anos depois do lançamento do seu primeiro álbum.
"Se mudaram o mundo? Mudaram a cena musical. O que fazia deles únicos? Serem livres" - diz Paul, um puro "brit", e o quinto da fila para assistir ao concerto dos Sex Pistols. Quando eles apareceram, Paul tinha 14 anos e a rebeldia da banda coincidia com a sua. À volta, havia desemprego, depressão, imagens de um filme cru, uma fúria raivosa.
"Never mind the Bollocks: here`s the Sex Pistols", o disco lançado há exactamente 30 anos, anunciava um novo tempo, uma nova atitude.
John Lydon, mais conhecido por por Johnny Rotten, exibia a podridão que se sentia na sociedade inglesa: adulteraram-lhe o nome por causa dos seus dentes podres (rotten = podre).
Foi chamado por Malcom McLaren e Vivienne Westwood por causa da t-shirt que trazia, em que se lia "Eu odeio os Pink Floyd". Prestou provas na loja mítica de Malcom, a Sex. Imitou Alice Cooper e ficou com o lugar.
A loja funcionou como laboratório desse movimento catalisador - o punk. Pouco depois, Rotten dizia coisas poucas abonatórias sobre bandas como os The Who ou os Rolling Stones, e declarava o fim do rock and roll: os Pistols eram a última banda rock.
Paul, e outros como Paul, reviram-se nessa vontade de mudar o mundo de lugar. Quis fazer como Sid Vicius, num filme da altura, cantar o "My Way" e depois atirar à cabeça e ao coração das senhoras e senhores das filas da frente. Todos estavam sedentos de uma anarquia que contagiasse o Reino Unido. Os Sex Pistols transformaram-se no ícone dessa geração.
Paul chegou às 13:00. Tem um chapéu preto que o protege da chuva. Há um outro inglês, também nos 40, que vai vê-los pela primeira vez. Eles voltaram pelo dinheiro, e nada daquilo faz muito sentido, garante. Como entender, então, que tenha gasto uma pipa de massa (100 libras, 150 euros) para assistir ao concerto e espere à chuva horas sem fim?
Bem, mesmo que sobre o desapontamento no fim da noite, ele não podia desperdiçar a oportunidade de ver a banda mais marcante da sua vida. Com mais nenhuma sentiu essa identificação profunda. Pergunta, por fim, quanto quero pelo guarda chuva... Abandonar a fila para comprar um está fora de questão. A chuva é cada vez mais intensa e londrina. São 16:30 e escurece minuto a minuto.
A espera será longa. Na fila há um holandês ansioso por dizer que é holandês e que veio de propósito de Amesterdão ver os Sex Pistols. Fuma cigarro atrás de cigarro, tem um imenso saco plástico vestido para escapar à chuva. Veio para ter o que contar, para saborear a aventura da viagem.
À sua frente está um bando de quatro, os primeiros a chegar. Dizem que estão ali desde as 10:00. Durante três horas, pelo menos, foram os únicos. São miúdos de pele pálida e rebeldia estilizada. O cabelo pintado de louro sobre a testa, o piercing no canto da boca.
Quando eles nasceram, os Pistols estavam desavindos. Sid Vicius tinha escapado à acusação de matar a namorada e morrido na casa de banho da mãe com uma overdose de heroína. Finava o símbolo de uma geração, aos 21 anos, e começava a mitificação do baixista. O mundo da música precisa dos seus rebeldes, com causa ou sem ela.
Os restantes elementos separaram-se logo depois, em 78, e reuniram-se em 96. Mas nada do que fizeram entretanto terá a força do concerto desta noite: este será a mais perfeita evocação desse tempo em que apareceram para mudar o mundo. Esta noite só se pensará em "Never mind the Bollocks".
Brixton Academy: sai-se do metro, vira-se à direita, um pouco mais à frente à esquerda, e ei-la. Lê-se a vermelho: "Sex Pistols, 5 nights, sold out". O concerto desta noite esgotou poucas horas depois de os bilhetes terem sido postos à venda. Mais quatro foram marcados.
Cá fora, há um Outono adiantado, um desconforto que não demove os fãs da banda. Estranho seria se o tempo não fosse agreste. Como dizia Rotten, Os Pistols não existiriam sem a "velha e querida Londres". Com o seu tempo ultrajante! Se tudo correr como previsto, às nove eles sobem ao palco para mostrar se estão à altura da sua glória.