Só tenho pena de no 25 de abril não ter uma máquina fotográfica, diz António Cotrim

Só tenho pena de no 25 de abril não ter uma máquina fotográfica, diz António Cotrim

A 25 de Abril de 1974, António Cotrim distribuía as notícias, quando foi barrado pelas tropas de Salgueiro Maia. Ao pedido de passagem veio a resposta do militar de serviço: hoje não há notícias, a notícia é a Revolução.

Lusa / Adicionar como fonte informativa

"Só tenho pena de naquele tempo não ter uma máquina fotográfica", lamentou numa entrevista a propósito dos 40 anos da agência Lusa, que se assinalam este ano.

Mais de meio século passado sobre este episódio, António Cotrim tem hoje uma carreira reconhecida e premiada como fotojornalista.

Aos 68 anos, quase a "pendurar" à máquina fotográfica, Cotrim é hoje o funcionário mais antigo da agência Lusa para onde transitou depois de se ter tornado fotojornalista, em 1983, na ANOP, mas a sua ligação às agências de notícias começou muito antes.

Antes do 25 de Abril de 1974, conviviam em Portugal, duas agências: a ANI fundada em 1947 e a Lusitânia em 1942, ambas conotadas com o regime do Estado Novo.

António Cotrim chegou à Lusitânia em 1973, aos 16 anos, com a função de distribuidor de notícias.

"Recebíamos as notícias de África e algumas notícias de cá. Depois de escritas, eram passadas a `stencil`, impressas em folhas A4 e postas num envelope. Eu tinha por obrigação ir aos jornais do Bairro Alto - Diário de Lisboa, Diário Popular, Capital, República, Novidades - levá-las. Ia também à censura para o lápis cortar ou deixar passar", recordou.

A rotina repetia-se todas as manhãs. Passava também pela à PIDE/DGS, na rua António Maria Cardoso, no centro de Lisboa, e depois descia à Baixa para ir ao Banco Nacional Ultramarino.

Naquela manhã, Cotrim tinha já passado pela sede da PIDE/DGS. A porta estava fechada e guardada por um grupo de homens armados. Do edifício saia um intenso cheiro a queimado. Deixou as notícias e seguiu pela Rua da Conceição, até que a Revolução lhe travou o passo.

A sede da Lusitânia viria a ser ocupada pelos militares ainda naquele dia e a agência foi extinta tempos depois, transformando-se na ANOP, num processo que levou mais tempo do que aquele que o "miúdo" António Cotrim podia esperar.

"Não podia ficar no desemprego. Fui trabalhar de cantoneiro de limpeza" na Câmara Municipal de Lisboa, recordou.

A ANOP foi criada em julho de 1975, absorvendo muitos dos trabalhadores da Lusitânia. António Cotrim ficou de fora nesta primeira fase por ter arranjado outro emprego, mas nunca desistiu do regresso às agências.

"A ANOP era nessa altura no Marquês Pombal e eu saia da câmara e ia lá chatear, chatear, chatear. Nunca desisti", disse.

Até que, finalmente, em junho de 1978, entra para a ANOP como contínuo, quando a agência já estava instalada no n.º 5 da Rua Júlio de Andrade, ao Campo de Santana.

Nessa altura, Cotrim andava longe de se tornar no fotojornalista que viria a ser, mas uma máquina Minolta trazida por um tio que veio de visita do Canadá já lhe tinha despertado a curiosidade pela fotografia. Não sossegou enquanto não convenceu a mãe a comprar-lhe uma igual e foi assim que começou a fotografar tudo que lhe despertasse interesse.

Na ANOP, entrava antes das 09:00 horas para explorar o laboratório fotográfico que havia no rés do chão do palacete, fazia o turno de continuo e no final do dia prolongava o horário pela mesma razão.

"Ia ver aquela azafama das máquinas a receberem as telefotos", máquinas que lhe "marcaram a vida" e que foi resgatar do pó e do esquecimento para criar o Núcleo Museológico da agência Lusa, inaugurando em setembro, e do qual é o curador.

Orgulha-se de ter feito todas as funções que havia na ANOP e de ter "vestido a camisola", na década de 80, quando a agência entrou em crise e teve de disputar espaço com a recém-criada agência NP.

"Mais de metade dos funcionários abandonaram a ANOP para a NP. Para a ANOP não ser extinta, os que ficaram vestiram a camisola. Coisas que as pessoas antes faziam. Foi uma das alturas mais bonitas das pessoas lutarem por algo de que gostavam. Foi nessa altura que me perguntaram se queria ir para a fotografia. Disse logo que sim", conta.

Foi operador de telefoto, e aprendeu com mestres fotógrafos, os "grandes monstros" como Fernando Baião, Manuel Moura, Acácio Franco, Alfredo Cunha, Eduardo Gageiro ou Rui Ochoa.

"Hoje há o curso de comunicação social, antes havia o curso da vida. Para ser fotógrafo era preciso ir ao Sindicato dos Jornalistas prestar provas e ter um padrinho ou uma madrinha. A minha madrinha foi a [jornalista] Matilde Ramalho. Fui ao sindicato, deram-me um rolo, fotografei, revelei e estava bom", lembrou.

A primeira fotografia que publicou na linha da ANOP foi de um jogo de basquetebol Benfica-Porto no antigo pavilhão do Estádio da Luz.

"Foi como se tivesse comprado um rebuçado e me tivesse saído o cromo com o boneco que dava direito a uma bola de catechu", lembra.

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