Teatro Capitólio "celebra" 75 anos com futuro incerto
O Teatro Capitólio, no Parque Mayer, em Lisboa, "celebra" segunda-feira 75 anos num estado de total abandono e degradação, mas com a esperança de uma recuperação ainda sem data prevista.
Apesar de "velhinho", o teatro está hoje mais perto de ver a sua vida prolongada, depois de o actual executivo da Câmara de Lisboa ter anunciado a intenção de preservar o edifício, ao contrário do que previa o anterior projecto para o Parque Mayer, do arquitecto Frank Gehry.
Inaugurado a 10 de Julho de 1931, o teatro, da autoria de Cristino da Silva, é considerado a primeira obra modernista da arquitectura portuguesa.
Com "music-hall" e um cinema ao ar livre no topo, a que se acedia através de uma moderníssima rampa rolante, o Capitólio viria a ser alterado logo após quatro curtos anos de vida, sendo então adaptado pelo mesmo arquitecto apenas para cinema.
A história do edifício prosseguiria atribulada: nos anos 60 foi acrescentada, no topo, uma estrutura "feiíssima" de vidro e metal, em forma triangular, para cobrir a zona do cinema ao ar livre, segundo José Manuel Fernandes, especialista em arquitectura modernista.
Após o 25 de Abril, o cinema chegou a exibir filmes pornográficos e manteve a função de teatro de revista até ao final dos anos 80, altura em que foi o palco da apresentação da candidatura de Jorge Sampaio à Câmara de Lisboa, permanecendo abandonado desde então.
O Capitólio foi entretanto classificado pelo Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR) como imóvel de interesse público, em 1983.
Durante o mandato de João Soares (PS) à frente da Câmara de Lisboa, chegou a ser encomendado um projecto de recuperação do Parque Mayer ao arquitecto Norman Foster, mas o anterior presidente da Câmara Municipal, Pedro Santana Lopes (PSD), rejeitou os estudos e dirigiu um convite a Frank Gehry.
O projecto então concebido pelo arquitecto norte-americano não previa a manutenção do Capitólio, cuja desclassificação seria pedida ao IPPAR.
No ano passado, o teatro foi o primeiro edifício português a integrar a lista dos cem monumentos mais ameaçados do Mundo, da responsabilidade da organização não-governamental World Monuments Fund (WMF).
O sucessor de Santana Lopes, o também social-democrata Carmona Rodrigues, teve uma posição diferente quanto ao futuro do edifício e anunciou a sua manutenção num futuro projecto de recuperação.
A Câmara de Lisboa está actualmente a desenvolver um estudo com as novas directrizes para apresentar ao arquitecto Frank Gehry, que poderá até recusar desenvolver um novo projecto.
Hoje, o edifício é morada de pombos, que aproveitam as dezenas de vidros partidos para se abrigarem no interior do teatro.
As paredes exteriores estão cobertas por manchas negras de humidade e por tufos de ervas e as letras "Capitólio", que cobrem a estrutura central da fachada principal, estão cheias de ferrugem.
Apesar do aspecto desolador, o arquitecto José Manuel Fernandes acredita que a estrutura de betão armado, que representa cerca de 70 por cento do prédio, é recuperável.
A notícia da reabilitação parece ser um bom "presente" para o Capitólio no seu 75º aniversário, que até poderá reverter para os responsáveis pela intervenção: no mês passado a WMF lançou um prémio que distingue a recuperação de edifícios modernistas.