Teatro Griot estreia "Combate de negro e de cães" em março no Teatro do Bairro

Teatro Griot estreia "Combate de negro e de cães" em março no Teatro do Bairro

Peça sobre "múltiplos poderes" em confronto e disputa foi como a encenadora Zia Soares definiu "Combate de negro e de cães", de Bernard-Marie Koltès, que o Teatro Griot estreia a 05 de março, no Teatro do Bairro, em Lisboa.

Lusa /

"São vários, são múltiplos poderes. Há uma disputa e essa disputa implica também um confronto de poderes, dos vários poderes, do homem-mulher, do operário com o seu superior, do negro e do branco, da África e da Europa", disse à Lusa Zia Soares, que volta a pôr em palco uma peça do dramaturgo francês, dois anos depois de ter erguido "Na solidão dos campos de algodão".

Escrita em 1979, "Combate de negro e de cães", segundo o seu autor, Bernard-Marie Koltès (1948-1989), não aborda em particular o neocolonialismo nem a questão racial, como explicou em entrevista à revista Europe, quando da estreia da obra, em 1983: "Não sou um autor africano [...]. [A peça] certamente não expressa qualquer opinião, simplesmente fala de um lugar no mundo. Por vezes, encontramos lugares que são, não direi reproduções do mundo inteiro, mas uma espécie de metáfora para a vida ou um aspeto da vida, ou para algo que me parece sério e óbvio".

"Combate de negro e de cães" foi escrita após o autor ter passado um mês em África a visitar amigos numa obra pública, num pequeno povoado com cinco ou seis casas no meio do mato, cercado por arame farpado e torres de vigia, onde uma dúzia de brancos vivia aterrorizada com o mundo exterior.

A peça fala assim de três seres humanos brancos que se sentem isolados num local que lhes é estranho, circundados por guardas enigmáticos que soltam gritos guturais.

Definida como drama psicológico intenso, a peça decorre durante uma noite num estaleiro francês de obras, num país da África Ocidental, e a trama é instigada com a chegada de um habitante local, Alboury, que teima em não sair do estaleiro sem levar o corpo do irmão, Nuofia, morto em circunstâncias suspeitas.

Alboury recusa-se a partir, perturbando a frágil normalidade vivida no enclave e dando o tiro de partida para o conflito se adensar, já que o corpo não aparece e tudo aponta para que não seja devolvido. A personagem acaba por se tornar o líder de uma revolta, conseguindo apropriar-se do enclave.

Ao pôr em cena esta peça, Zia Soares disse à Lusa que o Teatro Griot continua a investigação sobre como o poder se organiza e sobre como a "linguagem o sustenta e como a presença do outro o desestabiliza".

O impacto de, em 2024, terem posto em cena "Na solidão dos campos de algodão", também do autor francês, fê-los pensar continuar a trabalhar Koltès com um texto que levou ao Griot "coisas distintas" do que tem sido o percurso da companhia.

"Desde já, o facto de pensarmos que as temáticas e os questionamentos que estamos a fazer não sejam novos, têm é outras perspetivas trazidas pelo texto, mas também, pela primeira vez, no palco estão mais atores brancos do que atores negros", disse Zia Soares, sublinhando tratar-se de "uma novidade" para a companhia.

Tudo o que esta peça de Koltès traz, prossegue Zia Soares, "continua, infelizmente, por variadíssimas razões a caber naquilo que nós estamos a viver hoje em dia".

"Esta ideia do outro, do estrangeiro, do imigrante, parece um bicho papão que vai tomando uma forma cada vez maior e que vai ocupando um espaço cada vez maior naquilo que são os questionamentos das sociedades, mas talvez não pelas melhores razões", afirmou.

Zia Soares chamou também a atenção para o facto de na peça haver "um grande contraste entre as personagens brancas que falam, falam, falam, falam, e a personagem negra, que é a que fala menos mas a que tem mais ação".

E se a determinada altura Zia Soares se interrogou se seria a pessoa correta para encenar a peça, por o texto ser escrito e apresentar a perspetiva de um homem banco e "um universo de branquitude" que lhe é "estranho", por outro, juntamente com "todos os profissionais fantásticos, não apena os atores mas todos os que fazem a peça", conseguiu, "de forma bastante gradual", encontrar o "seu próprio lugar e a sua própria perspetiva" para a obra.

Com tradução de Jorge Tomé, cenografia e figurinos de Neusa Trovoada, música e design de som de Xullaji, a peça é interpretada por António Simão, Matamba Joaquim, São José Correia e Thomas Coumans, que também faz a revisão estilística.

A tradução e elocução dos testos em off é de Mamadou Ba e o design de luz de Ricardo Campos.

No Teatro do Bairro, "Combate de negro e de cães" vai estar de 05 a 15 de março, com sessões de quinta-feira a sábado, às 21:00, e ao domingo, às 16:00.

No da 27 de março, será representada no Teatro José Lúcio da Silva, em Leiria.

 

 

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