Teatro O Bando estreia "Afonso Henriques" um espetáculo "muito divertido"
O Teatro O Bando regressa, na quinta-feira, em Palmela, a uma das suas peças originais, "Afonso Henriques", um espetáculo "emblemático", inicialmente estreado em 1982, que "espelha a estética da companhia", disse hoje à agência Lusa o encenador João Brites.
"Afonso Henriques", que é sempre um "novo e outro" espetáculo cada vez que é refeito, dá a todos os atores de O Bando "um grande prazer fazer", acrescentou João Brites, sublinhando, todavia, como é difícil a sua montagem.
"Nós enveredámos por um teatro mais dramático, conceptual e `Afonso Henriques` está na base do que é O Bando", afirmou.
Para um dos cofundadores da cooperativa, que se mantém como diretor artístico, pôr em cena "Afonso Henriques" é sempre uma tarefa difícil, porque o espetáculo, concebido a partir de crónicas medievais e de um poema de tradição oral recuperado por António José Saraiva, "é uma [peça de] relojoaria".
"Mas é muito divertido", frisou, referindo que o coletivo tinha pensado voltar a fazê-lo há dois anos, acabando por só agora o pôr em palco.
Uma decisão acertada, argumentou o encenador, face ao que se discute hoje, nomeadamente "o que é a nacionalidade, o que é o país, onde estão as fronteiras, o que são as guerras, para quem são, quem as faz, como se fazem e o que é que isso traz de positivo e de negativo".
Como se lê na apresentação da peça, no `site` da companhia, "há histórias que não envelhecem: apenas esperam o momento de serem contadas outra vez".
João Brites quer acreditar que, "daqui a uns séculos, a portugalidade terá sabido engrandecer-se com os imigrantes africanos e brasileiros, com as pessoas que vieram do Paquistão, da Índia e do Nepal, e até com os turistas que, vindos da Europa e de outras partes do mundo, se fixam no nosso país", escreve na folha de sala.
"Precisamos da diferença dos outros para melhor sobrevivermos", garante João Brites.
Por isso, estrear "Afonso Henriques", um espetáculo que é "da escola de O Bando e que praticamente esteve sempre em repertório", é também "olhar um bocadinho para o presente através desta experiência acumulada", frisou o encenador à Lusa.
Com esta peça, a cooperativa entra na zona do que chama "teatro comunitário": "Afonso Henriques" não é um espetáculo apenas para crianças, mas para "as famílias e a comunidade" em que o "desafio cénico" não reside apenas na palavra, observou.
João Brites lembrou ainda que a peça tem "um texto incrível", que "primeiro foi dito" e só "depois foi escrito", sublinhando ter sido uma sorte encontrar esse apontamento "de duas, três páginas", dedicadas ao poema de tradição oral, em "Crónica Breve", de António José Saraiva.
O encenador confrontou então aquele texto com as crónicas dos reis de Espanha, aportando à peça duas visões diferentes de dois países distintos e dos acordos que estes tinham de fazer com a Santa Sé e com os vizinhos.
"O que está na ordem do dia", argumentou a propósito da peça que já foi representada por todos os atores, assalariados ou trabalhadores a tempo inteiro, que passaram por O Bando.
"Afonso Henriques", um "retrato" do primeiro rei português, "das suas glórias e vicissitudes", desmistifica também essa personagem histórica, num espetáculo onde não faltam tambores e gaitas de foles.
A partir de um poema épico de tradição oral e de crónicas da Idade Média, João Brites concebeu a dramaturgia encenação e espaço cénico do espetáculo que pôs em cena pela primeira vez em 1982, e que é "novo e outro" cada vez que é refeito, garantiu.
De acordo com a sinopse, "o espetáculo constrói o retrato de uma criança que herda um pedaço de terra para os lados de Astorga, de um adolescente que aprisiona a mãe, de um guerreiro que mata e saqueia e que se zanga com o Papa, de um conquistador temível que, em nome do reino de Deus, ataca sempre de surpresa, de um velho friorento que se liberta das mãos dos castelhanos e morre aprisionado nas memórias e nas imagens de todos nós".
Em 1983, a peça foi distinguida como Melhor Espetáculo para a Infância e Juventude pela Associação Portuguesa de Críticos de Teatro.
Com figurinos de Clara Bento, assistida por Inês Reis, carpintaria de Mestre Espada e restauração cenográfica de Paula Perez, a peça tem desenho de luz de Bruno Cristi e música original de Nuno Cristo a partir de recolha de música tradicional portuguesa.
A interpretar estão João Neca, Juliana Pinho, Mariana Robert Preto, Nicolas Brites e Rita Brito.
Na sede de O Bando, em Vale de Barris, Palmela, "Afonso Henriques" fica em cena até 12 de novembro, com récitas ao sábado, às 21:00, e, ao domingo, às 16:00, estando também disponível para escolas durante a semana.
A peça seguirá depois em digressão, para Sever de Vouga (15 de novembro), Tondela (20 novembro), Guarda (25 novembro) e Lisboa (de 28 de novembro a 13 de dezembro, ao sábado e domingo).