Teatro Variedades acolhe estreia de "Lote 19", "ato político" com crise da habitação em cena
A peça "Lote 19 - Felicidade por metro quadrado", sobre problemas atuais de habitação, que adapta o romance "As girafas também baixam o pescoço", de Sandro William Junqueira, estreia-se hoje no Teatro Variedades, em Lisboa, encenada por Jorge Gomes Ribeiro.
A peça "é um ato político, puríssimo, tanto no seu lado trágico como no seu lado de comédia", disse o encenador à agência Lusa, no final de um ensaio de imprensa.
Num bairro à margem da cidade, perante um terreno vazio onde em breve irá aparecer mais um edifício, e ainda antes da chegada do empreiteiro, um velho vai lançando sementes de resistência e de esperança aos habitantes que se confrontam com a degradação das condições de habitação e que se batem por preservar o que ainda resta naquele local, onde continuam a procurar a felicidade.
No cenário, com painéis horizontais em acrílico e o artista gráfico Trauma 21 em cena, para pintar o painel central, os habitantes juntam-se em reunião. Os problemas sucedem-se: o elevador não anda, a casa mete água, as paredes degradam-se, numa sucessão de queixas que visam o administrador do condomínio, também proprietário da loja de legumes do bairro.
O romance "As girafas também baixam o pescoço" foi adaptado para versão dramática, por proposta da Companhia da Esquina, que produz o espetáculo, com colaboração do autor e do encenador, dando origem à peça que hoje se estreia no Teatro Variedades.
Para o encenador, "Lote 19 -- Felicidade por metro quadrado" "é a história de todos nós quando ficamos perturbados no nosso equilíbrio e na nossa dignidade de vida e de habitação, quando temos um buraco gigantesco ao lado da nossa organização e nos perturba todos os dias e que nos faz pensar na segurança da nossa família, no lado da dignidade de poder viver num sítio verde, no lado da dignidade de poder ter uma casa em conforto e no lado de poder cumprir aquilo que a Constituição diz que é o direito à habitação".
Com a habitação a ocupar um lugar central nos problemas com que a sociedade atual se debate, a peça é também uma forma de confrontar o público com a "indiferença que atinge neste momento o povo português" e que "terá de ser revolucionada e dar lugar a um protesto muito forte, porque a primeira coisa a dizer é que a habitação não é um negócio", frisou o encenador.
"A habitação não é especulação, a habitação é um direito. E estamos a esquecer-nos disso, a dar liberdade aos especuladores para estarem a fazer o que estão a fazer nas nossas cidades, neste momento, a sacrificar noventa e tal por cento da população para beneficiar dois ou três a terem vidas ultra dimensionadas, quando os outros ficam sem ordenados inteiros para pagar as rendas que têm", enfatizou.
"Lote 19 -- Felicidade por metro quadrado" é uma peça que atinge "o trágico e o cómico", porque a "vivência de um bairro tem uma sapiência própria, uma linguagem popular e grandes definições filosóficas que [os próprios habitantes] criam da suas próprias vivências", notou.
Para o encenador, um dos grandes interesses da obra reside nas personagens limite, ou personagens tipo, como o Velho, a Mulher Gorda, o Jovem Musculado, a Rapariga Magra ou o Homem Exemplarmente Vestido, "que têm a sua própria filosofia de vida, que tiveram de aprender a defender-se e tirar uma resiliência que é fortíssima do seu dia-a-dia, para não se deixarem engolir por este `establishement` que só tem uma função que é proteger cada vez mais os privilegiados e deixar o resto da população a esmorecer e a ter uma vida infeliz".
Produzida pela Companhia da Esquina, a peça "Lote 19 -- Felicidade por Metro Quadrado" tem adaptação e encenação de Jorge Gomes Ribeiro e a interpretação de Paula Neves, André Nunes, Ângelo Torres, Carla Chambel, Ana Lúcia Palminha, Beatriz Nabais, José Mateus, Madalena Perdigão, Pedro Pernas, Rita Fernandes e Tiago Costa.
O espetáculo fica em cena no Variedades até dia 13, com récitas de quarta-feira a sábado, às 21:00, e, ao domingo, às 16:00.
A seguir à última sessão, no dia 13, haverá uma conversa a partir do espetáculo subordinada ao tema "Como habitar a cidade quando a casa deixa de ser um direito", que incidirá sobre a crise na habitação e sobre como o acesso à habitação condiciona a dignidade, a saúde mental, as relações humanas e a construção de comunidade.
O debate conta com moderação de António Brito Guterres e conta com participações do encenador da peça, Jorge Gomes Ribeiro, do professor Rogério Roque Amaro, do arquiteto Tiago Mota Saraiva, do vereador da Habitação da Câmara de Oeiras, Armando Soares, e do presidente da Associação de Moradores do bairro 18 de Maio, na Outurela (Oeiras), já que a companhia da Esquina tem sede em Oeiras.
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