Tesouros arqueológicos afegãos ameaçados de destruição

Não é, desta vez, o fanatismo religioso dos taliban que ameaça um tesouro de incalculável valor cultural, como sucedeu em 2001, com os três Budas de Bamyian, destruídos a tiros de canhão: é, muito simplesmente, o plano de abrir uma mina de cobre no sítio arqueológico de Mes Aynak. Pelo menos duas camadas desse sítio correspondem a duas civilizações diferentes: uma, budista, com mais de 2.000 anos; outra, pré-histórica, com uns 5.000 anos.

RTP /
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O complexo de mosteiros budistas de Mes Aynak, cerca de 40 quilómetros a sudeste de Kabul, tornou-se cenário de uma corrida contra o tempo a partir de 2007, quando a empresa estatal chinesa China Metallurgical Group (CMG) assinou um contrato com o Governo que as forças da NATO colocaram no poder. Nesse contrato, em troca de 3.000 milhões de dólares, a CMG ficava com o direito a explorar durante 30 anos o subsolo de Mes Aynak, riquíssimo em cobre, com jazidas estimadas em 6.000 milhões de toneladas.

A corrida dos arqueólogos contra o tempo, negociada com os concessionários chineses, visava explorar integralmente o complexo de mosteiros budistas antes que a CMG pudesse completar a construção de infra-estruturas viárias que hão-de viabilizar a exploração mineira naquela localidade pouco acessível.

A estação arqueológica era considerada de importância decisiva, por se situar num complexo arquitectónico muito bem preservado, com uma área de uns 40 hectares. Um dos responsáveis do sítio arqueológico, o francês Philippe Marquis, vê no complexo de mosteiros um ponto essencial da “rota da seda” e compara o seu valor ao de Machu Pichu, no Perú.

Acontece que a exploração arqueológica do local, intensificada na sequência a assinatura do contrato, foi trazendo à luz do dia tesouros insuspeitados de Mes Aynak e revelando a localidade como ponto nodal, não só da “rota da seda”, como provavelmente de uma “rota do cobre”, que a ligaria desde tempos imemoriais com o Japão e a Coreia.

Aquela mesma riqueza em cobre que hoje ameaça a integridade do complexo arquitectónico foi desde cedo conhecida pelos monges budistas, que exploraram o metal e fizeram dele o cerne de uma intensa actividade económica.

Nas buscas iniciadas após 2007 encontraram-se cerca de 400 estátuas budistas – um tesouro muito superior ao existente no Museu Nacional de Kabul. Encontraram-se também vestígios da presença dos exércitos de Alexandre Magno.

E, fundamentalmente, encontraram-se ferramentas cuja origem recua à Idade do Bronze. Quanto mais se trabalhou no sítio arqueológico, tentando utilizar o tempo restante até à abertura da mina, mais se foram encontrando razões para manter a exploração arqueológica e para adiar o início da mineração.

Um abaixo-assinado internacional dirigido ao presidente Hamid Karzai procura fazer valer os argumentos a favor desse adiamento. Mas o arqueólogo Fredrik Hiebert, especialista no Afeganistão, entrevistado pelo diário espanhol El Pais, manifesta algum cepticismo sobre a viabilidade da campanha: o valor da jazida de cobre, diz, “é muito importante para o desenvolvimento do país, uma oportunidade para os afegãos, e iniciativas assim não param nem nos EUA nem na Europa, de modo que no Afeganistão …”

A corrida contra o tempo prossegue. Segundo Hiebert, “ninguém sabe quando começará a construção da mina e se dará início à actividade, talvez dentro de meio ano, ou um ano ou mesmo dois. Era um lugar sem infra-estruturas e os chineses têm de construí-las todas, inclusivamente uma linha de caminhos de ferro. Pode ser que ainda fique para os trabalhos de salvamento mais tempo do que pensávamos, há um certo espaço para o optimismo”.
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