Tradução de Aquilino de "A Retirada dos Dez Mil" de Xenofonte regressa às livrarias

Lisboa, 11 out (Lusa) -- O clássico grego "A Retirada dos Dez Mil", de Xenofonte, traduzida por Aquilino Ribeiro, que é reeditada na segunda-feira, constitui "um dos mais movimentados e arrebatadores livros de ação", afirma Mário de Carvalho na introdução.

Lusa /

O original grego relata as atribulações de um exército helénico em retirada, depois de terminadas as Guerras do Peloponeso. Terminada a expedição mercenária à Pérsia, para combater por Ciro, o Jovem, contra o seu irmão Artaxerxes II, e apesar de vitorioso, o exército bateu em retirada para o Interior da Grécia, depois de atraiçoado num simulacro de armistício, que causou a morte dos seus chefes.

Traduzido por Aquilino Ribeiro, quando ainda era estudante em Paris, na Sorbonne, o texto acabou por ser prefaciado pelo autor de "Quando os lobos uivam" e publicado em 1938. A obra é reeditada na segunda-feira, pela Bertrand, na íntegra, acrescentado de uma introdução do escritor Mário de Carvalho.

A obra de Xenofonte (430-354 antes de Cristo) surgiu por acaso ao jovem Aquilino, quando se cruzou, em Paris, com um "homem, farto de letras e de anos", de seu nome Tournier, que insistiu em falar português. Era uma "personagem, bastante misteriosa, fechada como casa devoluta ou onde morreu alguém", afirma o autor de "O Malhadinhas" no prefácio.

Foi este homem, "católico e monárquico", que certo dia lhe apresentou um in-fólio de uma "boa tradução latina" da obra do autor ateniense.

"Aqui está como travei relações a fundo com Xenofonte, aristocrata, mas sempre civilista, homem de engenho e de armas, mestre na gineta e na cinegética, apaixonado pela ação e a aventura, e cultivando no seu retiro da Élida a lavoura e as letras", escreve Aquilino, que se apressou a verter para português a obra, a partir de uma "boa tradução latina", do original grego.

Mário de Carvalho atesta na introdução que "este é um dos mais movimentados e arrebatadores livros de ação que jamais se escreveram".

"Lê-se empolgadamente, como um romance de guerra", remata.

"Trata de personagens, factos e locais verídicos, transfigurados (os especialistas dirão até que ponto) por uma pena ágil, de poderoso vigor expressivo", acrescenta Carvalho.

"Esta obra trata, sobremaneira, de guerra, combates e violência. Uma excecional narrativa que encontrou a sorte de um grande tradutor", atesta Carvalho.

Refira-se que Xenofonte foi discípulo do filósofo Sócrates, de quem escreveu uma apologia, e que foi um dos comandantes da marcha e que, na narrativa, se refere a si próprio na terceira pessoa.

Mário de Carvalho salienta que "em boa hora" Aquilino Ribeiro (1885-1963) intitulou "A Retirada dos Dez Mil", uma obra, que é conhecida por "Anábase".

Sobre o feito militar, Mário de Carvalho afirma que, "no remate do livro, porventura adicionado mais tarde, que [os soldados] percorreram mil cento e cinquenta e cinco parasangas (cada: 5520 metros) [mais de seis mil quilómetros], e que a expedição durou quinze meses".

"A marcha [dos soldados helénicos] --- progressão até Cunaxa, às portas de Babilónia e regresso pelas margens do Eufrates, montanhas do Curdistão, Arménia e Geórgia, com o sentido no Mar Negro --- ficou na história como um dos mais celebrados feitos militares de todos os tempos", escreve o autor de "A inaudita guerra da avenida Gago Coutinho".

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