Três autores brasileiros da "geração já do século XXI" falam sobre o que os distingue
Lisboa, 18 Fev (Lusa) -- Três novos autores da literatura brasileira vieram a Portugal apresentar as respectivas obras, lançadas pela Caminho, cujo editor, Zeferino Coelho, resolveu apostar "numa geração já do século XXI", e falar dos traços que a distinguem das anteriores.
São eles Amílcar Bettega, de 44 anos, com o livro de contos "Os Lados do Círculo", vencedor do Prémio Portugal Telecom de Literatura 2005, João Paulo Cuenca, de 30 anos, com o seu segundo romance, "O Dia Mastroianni", e Daniel Galera, de 29, também com um segundo romance, "Mãos de Cavalo", e reuniram-se terça-feira à noite para um debate, na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, com três outros autores da nova literatura de língua portuguesa: o angolano Ondjaki e os portugueses Gonçalo M. Tavares e José Luís Peixoto.
"Os escritores não gostam nunca de ser classificados, mas a mim, que sou um editor e tenho de ser um homem prático, dá-me jeito classificá-los e por isso, pensei, `bom, vou escolher de entre os autores mais novos` e então chamei-lhe novíssima literatura brasileira`", disse Zeferino Coelho, cuja "coragem para publicar três novos autores quase em simultâneo" foi saudada pela escritora Inês Pedrosa, directora da Casa Fernando Pessoa e moderadora do debate.
"Já é uma coisa do século XXI, todos eles começaram a escrever há poucos anos (...) Os escritores brasileiros passam bem sem nós, nós é que passamos mal sem eles: está a acontecer uma nova pulsão na literatura brasileira, que até é na nossa língua, e nós não queremos perder isso", acentuou.
Gonçalo M. Tavares, que falou sobre a obra de Daniel Galera, "Mãos de Cavalo", considerou "muito interessante ver o contraste entre os três autores, que são uma espécie de mostruário das possibilidades da língua portuguesa".
Sobre a existência de um outro factor unificador que os caracterize, além da faixa etária, Amílcar Bettega indicou que acha "muito difícil dizer se há uma ruptura ou não com o que vem logo atrás", com as gerações anteriores da literatura brasileira.
Por sua vez, João Paulo Cuenca defendeu que "o que há em comum [entre estas três obras] é que são narrativas urbanas, que se debruçam sobre uma personagem: um homem se confrontando consigo mesmo dentro de uma cidade".
"Mas isso não quer dizer nada, porque um dos grandes temas da literatura do século XX é exactamente o homem e a cidade", observou.
"Se fosse pela estética e pelos traços autorais dos três escritores, eles não poderiam sequer sentar na mesma mesa para jantar ou para tomar um café. Os livros são muito diferentes (...) e a gente convive bem, e se lê e se aprecia", acrescentou.
Para Daniel Galera, "se existe uma característica desta nova geração, é que é uma geração que já não sente necessidade de fazer frente a nada".
"Nem digo só a cânone literário, eu digo a tudo. Nós, como autores, seguimos o mesmo individualismo que é um pouco a marca das nossas vidas em qualquer campo, não só na literatura. Então, nós somos fruto do que a gente leu, do lugar onde cresceu, da classe social na qual a gente transitou, dos videogames que jogou, dos esportes que praticou, dos lugares para onde viajou...", referiu.
E Zeferino rematou, dizendo: "Acho que têm um certo ar de família".
ANC.