Três obras inéditas de Anne Carson chegam a Portugal nos próximos meses

Três obras inéditas de Anne Carson chegam a Portugal nos próximos meses

Três obras de Anne Carson vão ser publicadas pela primeira vez em Portugal nos próximos meses, duas delas já em novembro, numa aposta reforçada das editoras portuguesas após a atribuição do Nobel da Literatura à autora canadiana.

Lusa / Adicionar como fonte informativa
Reuters

A editora The Poets and Dragons Society vai publicar, no dia 10 de novembro, a peça dramática "Norma Jeane Baker de Tróia" e a obra híbrida "A Norma Errada", dois livros até agora inéditos em Portugal, enquanto a Almedina prepara a edição do ensaio "Economy of the Unlost", prevista para fevereiro do próximo ano.

A estas novidades, junta-se a reedição de "A Beleza do Marido", publicada em 2019 pela (não) edições, que se encontra esgotada e deverá regressar às livrarias, embora ainda sem data definida, como disse à agência Lusa o editor, João Concha.

A The Poets and Dragons Society, que se estreia na publicação de Anne Carson, consagrada Prémio Nobel da Literatura de 2026 no início deste mês, está também a negociar os direitos de outras obras da autora, mas ainda não pode confirmar títulos nem datas.

"Encontramo-nos a negociar a publicação de mais livros da autora e aguardamos ainda uma resposta final. Queremos dar continuidade à presença da sua obra no nosso catálogo, mas, nesta fase, ainda não podemos confirmar os próximos títulos nem as respetivas datas de publicação", adiantou à Lusa a editora, através de Dinis Machado.

As duas primeiras apostas da The Poets and Dragons Society apresentam diferentes facetas da escrita de Anne Carson, que cruza frequentemente a tradição clássica com a experiência contemporânea, explorando as fronteiras entre poesia, teatro, ensaio e narrativa.

Em "Norma Jeane Baker de Tróia" - uma peça de teatro original de 2019 escrita em verso, com elementos de poesia e música -, a escritora parte da tragédia "Helena", de Eurípides, para aproximar duas figuras femininas separadas por milénios: Helena de Tróia e Marilyn Monroe.

Nesta versão do mito recriada por Anne Carson, a guerra de Tróia foi travada por uma mulher que nunca lá esteve, uma vez que os deuses enviaram para a cidade uma nuvem com a sua aparência, enquanto a verdadeira Helena se encontra em Los Angeles, numa suíte do hotel Chateau Marmont, a decorar as falas de um filme de Fritz Lang.

Nesta aproximação entre a mitologia grega e Hollywood, o escritor Truman Capote assume a voz do coro e a guerra envolve produtores, contratos e campanhas publicitárias, numa reflexão sobre a celebridade, a apropriação da imagem feminina e a violência que pode resultar da distância entre uma pessoa e a representação que dela é construída.

A peça "Norma Jeane Baker de Tróia" foi levada à cena em 2019, no The Shed, em Nova Iorque, numa produção protagonizada por Ben Whishaw e pela soprano Renée Fleming, com encenação de Katie Mitchell, que combinava palavra dita e canto.

A edição portuguesa da obra tem tradução de Sónia Guimarães e D. H. Machado e inclui um posfácio deste último, intitulado "Uma guerra por uma nuvem --- Helena, Norma Jeane e o preço da imagem".

Já "A Norma Errada", tradução de "Wrong Norma", publicado originalmente em 2024, reúne poemas em prosa, narrativas, ensaios e imagens criadas pela própria autora, numa obra em que a literatura, a filosofia, as recordações familiares e os acontecimentos contemporâneos se cruzam.

Joseph Conrad, Gustave Flaubert e Sócrates convivem com episódios do quotidiano, notícias de guerra e memórias pessoais, enquanto desenhos, colagens e intervenções gráficas participam na construção dos textos.

"Um mergulho num lago conduz às fotografias de refugiados num jornal; uma reflexão sobre palavras antigas abre-se à recordação da morte da mãe; um jantar entre amigos revela quanto pode ser difícil encontrar companhia", exemplifica a editora, acrescentando que Anne Carson acompanha o pensamento nas suas mudanças de direção, entre o rigor da observação e o absurdo, a investigação erudita e uma intimidade que surge sem aviso.

Este livro venceu o National Book Critics Circle Award de poesia relativo a 2024 e foi finalista do National Book Award de poesia do mesmo ano.

Com tradução de Bernardo Diniz Ferreira, "A Norma Errada" chega às livrarias portuguesas juntamente com "Norma Jeane Baker de Tróia".

Outra novidade editorial está prevista para fevereiro de 2027, através da Almedina, que vai publicar pela primeira vez em Portugal o ensaio literário "Economy of the Unlost: Reading Simonides of Keos with Paul Celan", originalmente editado em 1999.

A obra aproxima o poeta lírico grego Simónides de Ceos e o poeta Paul Celan, separados por cerca de 2.500 anos, para explorar as relações entre poesia, linguagem, memória, perda e economia das palavras.

Partindo do facto de Simónides ter sido o primeiro poeta da tradição ocidental a receber dinheiro pela composição poética, Anne Carson analisa diferentes conceções do valor das palavras e estabelece paralelos com a escrita de Paul Celan, poeta judeu sobrevivente do Holocausto, cuja relação com a língua alemã foi profundamente marcada por essa experiência.

A autora confronta ainda a passagem de uma economia baseada na dádiva para outra assente no dinheiro, na Grécia Antiga, com a experiência de Paul Celan num mundo dividido pelo Holocausto, explorando a forma como ambos os poetas procuraram exprimir o invisível através da linguagem.

A Almedina, através da chancela Edições 70, já tinha publicado "Eros, Amargo e Doce - Um Ensaio", em que Anne Carson parte da poesia de Safo e da conceção do amor como experiência simultânea de prazer e sofrimento para refletir sobre o desejo amoroso na literatura e na filosofia da Grécia Antiga.

Segundo a editora, o livro esteve temporariamente esgotado, mas está já a ser reposto nas livrarias.

Também a (não) edições, responsável pela publicação de cinco títulos da autora em Portugal desde 2017, prepara o regresso às livrarias de "A Beleza do Marido", atualmente esgotado.

A editora mantém disponíveis "Autobiografia do Vermelho", publicado em 2017, com tradução de João Concha e Ricardo Marques, "Vidro, Ironia e Deus", de 2021, traduzido por Tatiana Faia, "Águalisa", de 2025, e "Homens nas Horas Vagas", de 2026, ambos traduzidos por Rui Cascais Parada.

A obra da escritora canadiana tem ainda edição portuguesa de "Antigotriz", publicada pela Companhia das Ilhas em parceria com o Teatro da Rainha, uma recriação da peça "Antígona", de Sófocles, numa linguagem renovada.

Poeta, ensaísta, tradutora e estudiosa da Antiguidade clássica, Anne Carson, de 76 anos, foi distinguida no dia 08 de outubro com o Prémio Nobel da Literatura de 2026, pelo conjunto de uma obra marcada pela experimentação formal e pelo diálogo entre a cultura clássica e a literatura contemporânea.

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