Triunfo de "Tsotsi" dá orgulho e nova esperança aos sul-africanos
O realizador Gavin Hoods expressou hoje, ao receber o Óscar para o Melhor Filme Estrangeiro atribuído a "Tsotsi", o orgulho e a esperança dos sul-africanos com a exclamação "Amandla", seguida da frase "Nkosi Sikelele Africa".
"Amandla", que significa nas línguas xhosa e zulu "poder" e o "viva" de vitória, tornou-se um grito de libertação depois de ter sido utilizado pela maioria negra na luta contra o "apartheid" e faz hoje parte da linguagem corrente, enquanto "Nkosi Sikelele Africa" significa "Deus Abençoe Africa" e faz parte do hino nacional sul- africano.
O triunfo do realizador Hoods e de toda a equipa de produção de "Tsotsi" faz renascer a esperança na indústria cinematográfica sul- africana, que tem vindo a dar sinais de uma vitalidade crescente.
O Óscar de "Tsotsi" segue-se à nomeação, há apenas um ano, de "Yesterday" para um Óscar na mesma categoria e do Óscar para a Melhor Actriz ganho por Charlize Theron pela sua interpretação em "Monster".
"Estamos a encontrar a nossa própria voz", disse na cerimónia no teatro Kodak Paul Raleigh, um dos produtores de "Tsotsi", referindo- se à descoberta de um cinema que reflecte a realidade de um país caracterizado pela diversidade, mas ao mesmo tempo por especificidades próprias da sua herança cultural e realidade histórica.
"Tsotsi" relata a história de um jovem "gangster" sul- africano, que encontrou no crime uma saída para a pobreza crónica em que a sua geração se viu mergulhada num quadro de desequilíbrios sociais e económicos.
Filmado em Joanesburgo e zonas periféricas mais pobres e emblemáticas, como o Soweto, o filme narra o terror imposto pelo jovem assaltante às suas vítimas, designadamente a uma mãe que perde uma criança de colo na sequência de um assalto à mão armada perpetrado pelo protagonista.
No decorrer do filme, o delinquente, de 19 anos, vê-se confrontado com a decisão mais difícil da sua vida: o que fazer com um bebé deixado no banco traseiro de um carro que acabara de roubar depois de disparar contra a mãe da criança.
Ao optar por tratar do bebé e devolvê-lo à família, o jovem enceta também uma viragem total na sua vida, abandonando o mundo do crime em que tinha mergulhado desde tenra idade.
O personagem, que perdera por completo o respeito pela vida das suas vítimas, é subitamente confrontado com a sua própria natureza humana e volta a sentir compaixão, remorso e respeito pelo seu semelhante, o que reflecte a história de tantos jovens delinquentes, alguns reabilitados, outros a cumprir longas condenações e alguns mortos em consequência da sua opção de vida, num retrato fiel da África do Sul pós "apartheid".
"Não pretendemos glorificar o crime, nem fazer sensacionalismo à sua custa, antes demonstrar que quando se desmonta um personagem violento e brutal, por debaixo da sua carapaça acabamos por encontrar as suas vulnerabilidades e ele eventualmente cai na realidade", referiu Paul Raleigh.
Para o jovem actor Presley Chweneyagae, que veste a pele do assassino, "Tsotsi" é "uma história de esperança, de arrependimento, que lida com as questões quentes que afectam hoje os sul-africanos, o crime, a SIDA e a pobreza".
Pallo Jordan, o ministro das Artes e Cultura, saudou hoje os actores, realizador e produtores de "Tsotsi", classificando o Óscar como "o reconhecimento mundial de uma indústria cinematográfica indígena com classe mundial".
"O seu sucesso revelou ao mundo, e aos EUA em particular, que o talento sul-africano - conforme exemplificado pela segunda nomeação de Charlize Theron para o Óscar de Melhor Actriz - não só pode competir em pé de igualdade com os seus rivais mundiais, como é de nível mundial", disse Jordan na sua mensagem de felicitações.
Por seu turno, o presidente da África do Sul, Thabo Mbeki, afirmou hoje que a atribuição do Óscar para o Melhor Filme Estrangeiro a "Tsotsi" marca "a época de esperança em que o país entrou".
"A história de pobreza, desespero e de luta que se transforma num profundo renascimento moral para um futuro melhor, Tsotsi é uma representação apropriada dessa era de esperança", referiu o chefe de Estado em comunicado.
Na mesma nota, Mbeki disse que o Óscar "atesta a abundância de talentos sul-africanos e simboliza que os sul-africanos podem obter êxito, desde que trabalhem em conjunto para um objectivo comum".