Cultura
"Tudo começou com pedras talhadas". Arqueóloga Sara Cura revela como a pré-história inventou o mundo moderno
Porque devemos procurar as origens da inovação milhares de anos antes do aparecimento da escrita? Algumas respostas podem ser encontradas no livro da arqueóloga Sara Cura, lançado recentemente. Ao percorrer 3,5 milhões de anos da pré-história, a investigadora mostra como a necessidade aguçou o engenho e a criatividade humanos, demonstrando que muitas das grandes inovações nasceram nas comunidades de caçadores-recoletores e perduraram até aos nossos dias.
Quando se fala de inovação, pensa-se habitualmente em inteligência artificial, computadores ou avanços tecnológicos de última geração. Mas, para a arqueóloga Sara Cura, a história da inovação começou há milhões de anos, muito antes da agricultura, da escrita ou das cidades.
É precisamente essa longa caminhada humana que a investigadora explora em Inovações Pré-Históricas que Mudaram o Mundo.
“Tudo aquilo que nós hoje temos à nossa volta começou com umas simples pedras talhadas”, afirma a autora em entrevista à RTP, defendendo que compreender as origens da técnica é fundamental para perceber como chegámos ao presente e até para refletir sobre os desafios tecnológicos do futuro.
“Hoje vivemos rodeados de tecnologia, até assustados pela tecnologia. É um bom exercício recuarmos até às origens e perceber esta longa caminhada que nos conduziu até aquilo que temos hoje”, observa.
Especialista em Pré-História (Paleolítico Inferior e Médio), Sara Cura alia a investigação arqueológica à comunicação de ciência. Além do trabalho académico, ensino e museologia, dedica-se à divulgação do conhecimento sobre as primeiras comunidades humanas através de diferentes plataformas, incluindo um podcast dedicado à ciência e ao património: Let´s Rock - um podcast da Idade da Pedra, foi distinguido com o Prémio PODES na categoria de Ciência, Tecnologia e Educação.
Uma "história antes da História", muito mais antiga do que imaginamos
O livro recua até há cerca de 3,5 milhões de anos, uma época em que os primeiros artefactos conhecidos começavam a surgir em África, - isto, à luz dos últimos conhecimentos.
"Eu faço esta baliza cronológica porque realmente são as datas mais antigas que nós temos para o aparecimento de artefatos. Com esta cronologia estarão associados a espécies como o Australopithecus ou eventualmente o Parantropus", explica Sara Cura.
Nessa altura, e muito longe da existência dos humanos modernos, estavam a ser lançadas as bases de tudo o que viria depois. Para Sara Cura, a técnica não é apenas uma característica da humanidade. É parte da própria condição humana.
“Quando nós nos começámos a tornar humanos, a técnica já fazia parte de nós”, afirma. A arqueóloga recorda que os nossos antepassados eram organismos frágeis perante os desafios do ambiente e que foi precisamente essa vulnerabilidade que impulsionou a inovação.
O período abordado no livro cobre a esmagadora maioria da existência humana. “O tempo da Pré-história é claramente o maior tempo da humanidade”, recorda a investigadora. Entre os primeiros artefactos (3,5 milhões de anos) e o surgimento das sociedades agrícolas (há cerca de 8 mil anos), passaram-se milhões de anos durante os quais "diferentes espécies humanas coexistiram, migraram e inovaram".
"Temos muitos protagonistas. Um dos meus objetivos também era mostrar a riqueza que nos antecede. Nós fomos muitos”, afirma.
"Neandertais, denisovanos, Homo erectus e Homo sapiens" fazem parte dessa narrativa longa e complexa, marcada também por sucessivas alterações climáticas.
“A espécie humana desenvolve-se num período marcado por glaciações e interglaciações”, explica. Essas mudanças ambientais tiveram um papel decisivo na procura constante de novas soluções técnicas na luta da sobrevivência.
A autora estabelece no livro uma distinção entre técnica e tecnologia. Enquanto a tecnologia está associada à modernidade, à Revolução Industrial e às máquinas complexas, a técnica, acompanha a humanidade desde as suas origens.
"E a dada altura nós percebemos que há determinadas técnicas e ideias técnicas que são tão elaboradas e complexas que pressupõem algum tipo de comunicação ou linguagem, mesmo que ela seja mais primitiva e não exatamente aquela linguagem que nós temos em fases mais tardias do Paleolítico, mas alguma forma de comunicação estruturada para transmitir esseconhecimento de geração em geração", sublinha.
O biface: a primeira grande revolução mental
Entre todas as inovações analisadas, há uma pela qual a arqueóloga confessa um carinho especial: o biface. Esta ferramenta de pedra, encontrada há cerca de 1,7 milhões de anos, representa para muitos investigadores um dos maiores saltos cognitivos da evolução humana.
“É a primeira vez que nós projetamos na rocha um design pré-concebido na nossa mente”, explica.
Ao contrário dos utensílios mais antigos, o biface exige planeamento, coordenação motora e capacidade de antecipar resultados. “Tem de existir um design intencional na mente de quem o vai fazer”, sustenta.
Para Sara Cura, esta tecnologia revela algo profundamente humano. “Exige uma capacidade intelectual muito superior e poderá até estar relacionada com o surgimento das primeiras ideias de estética".
Representação de um biface produzido em pedra. Ilustração de Guida Casela integrada no livro | Carla Quirino - RTP
O biface foi uma tecnologia extremamente bem-sucedida, fruto do engenho dos caçadores-recoletores, que lhes permitia criar gumes altamente eficazes e cortantes para explorar as carcaças dos animais, entre outras utilizações.
O fogo, a cooperação e a transmissão do conhecimento
Entre as tecnologias fundamentais está também o fogo. Embora os sinais do seu uso, surjam entre 1,5 e 1 milhões de anos, o controlo do fogo ganha maior clareza há cerca de 400 mil anos com a descoberta de concentrações de carvões em áreas delimitadas, correspondendo a fogueiras.
Entre as tecnologias fundamentais está também o fogo. Embora os sinais do seu uso, surjam entre 1,5 e 1 milhões de anos, o controlo do fogo ganha maior clareza há cerca de 400 mil anos com a descoberta de concentrações de carvões em áreas delimitadas, correspondendo a fogueiras.
“O fogo é uma tecnologia absolutamente indispensável e foi fulcral para a história humana”, sublinha. Mas o domínio do fogo revela outro elemento central do percurso humano: a capacidade de transmitir conhecimento. À medida que as técnicas se tornaram mais complexas, surgiu a necessidade de formas estruturadas de comunicação.
“Há determinadas ideias técnicas que pressupõem algum tipo de comunicação organizada para transmitir o conhecimento de geração em geração”, explica.
Essa partilha de saberes acabaria por ser tão importante quanto a própria inovação. Uma das principais mensagens do livro consiste em combater a imagem caricatural frequentemente associada às populações pré-históricas.
“Há muita criatividade e muito engenho na nossa história mais antiga”, afirma. Sara Cura considera que ainda persiste a ideia errada de que os habitantes da pré-história eram seres pouco desenvolvidos intelectual e socialmente. Pelo contrário, “eram muito mais engenhosos e muito mais humanos do que aquilo que nós pensamos”, diz.
A arqueóloga sublinha ainda que as trocas de matérias-primas entre comunidades e as relações sociais já existiam há centenas de milhares de anos, indicando que as redes de cooperação e a circulação das ideias já se estendiam geograficamente. “Os seres humanos são uma espécie hiperssocial e as redes de cooperação são extremamente antigas”, reitera.
A agulha que ajudou a enfrentar os glaciares
Entre os exemplos apresentados no livro, Sara Cura destaca uma invenção aparentemente modesta, detetada há 40 mil anos na região da Eurásia.
“A agulha foi aquele pequenino artefato sem o qual teria sido muito difícil enfrentar a dureza dos glaciares”, afirma. A capacidade de coser as peles produzindo vestuário ajustado ao corpo permitiu proteger as populações do frio extremo e dos ventos intensos dos últimos períodos glaciares.
Entre os exemplos apresentados no livro, Sara Cura destaca uma invenção aparentemente modesta, detetada há 40 mil anos na região da Eurásia.
“A agulha foi aquele pequenino artefato sem o qual teria sido muito difícil enfrentar a dureza dos glaciares”, afirma. A capacidade de coser as peles produzindo vestuário ajustado ao corpo permitiu proteger as populações do frio extremo e dos ventos intensos dos últimos períodos glaciares.
“A técnica adaptava-se às condições climáticas. Fomos sempre construindo soluções sobre soluções para enfrentar os desafios que se colocavam.”
Representação da agulha com buraco produzida em osso. Ilustração de Guida Casela integrada no livro | Carla Quirino - RTP
A par da agulha, o anzol, também produzido em osso, foi outro engenho criado pelos caçadores-recoletores. Moldado em forma de "J", este instrumento permitiu o desenvolvimento e o aperfeiçoamento das técnicas de pesca, assegurando um acesso mais eficaz aos recursos aquáticos.
“Curiosamente, o anzol e a agulha são designs com dezenas de milhares de anos que não mudaram, mantêm-se iguais, mudou a matéria-prima, mas o desenho perfeito foi encontrado há dezenas de milhares de anos e assim continuou” sustenta a arqueóloga.
O arco e flecha: "novidade mecânica"“Curiosamente, o anzol e a agulha são designs com dezenas de milhares de anos que não mudaram, mantêm-se iguais, mudou a matéria-prima, mas o desenho perfeito foi encontrado há dezenas de milhares de anos e assim continuou” sustenta a arqueóloga.
Outra das invenções que mais surpreendeu a autora durante a investigação foi o arco e flecha. “É um dispositivo inovador pelo que representa”, e pode ser situado entre os 30/25 mil anos.
A sua construção obrigava à combinação de diferentes matérias-primas, técnicas e conhecimentos acumulados ao longo de gerações. “São precisos muitos materiais diferentes e um longo processo de fabrico. E depois o arco combina-se com a flecha, num disparo mecânico. É uma novidade mecânica extraordinária”, exclama.
Das colas, às cordas e aos sapatos
Mas há outras tecnologias que desafiam as ideias feitas sobre a pré-história. As colas - o alcatrão de bétula - desenvolvidas pelos neandertais, por exemplo, permitiram unir diferentes componentes numa única ferramenta, e estava em prática há pelo menos 190 mil anos. “A partir do momento em que temos colas, começamos a unir as coisas”, explica.
Também as cordas, frequentemente vistas como banais, transformaram profundamente a vida humana. “As cordas são uma das tecnologias mais elementares que abriram um mundo incrível de possibilidades”, afirma.
Graças a elas tornou-se possível "fabricar redes, transportar materiais e desenvolver formas mais sofisticadas de mobilidade e navegação".
E para a mobilidade conta-se também com a invenção dos sapatos. "Os sapatos, por exemplo, é possível que sejam bastante antigos, também do Paleolítico Superior, portanto, qualquer coisa que começasse a ser utilizada desde há 30 mil anos". Embora as provas diretas sejam mais recentes, ao observar a "morfologia de algumas pegadas, pode intuir-se que aqueles pés estavam protegidos quando deixaram aquela mesma pegada" esclarece a investigadora.
O que a pré-história tem para ensinar ao século XXI da IA
Num momento marcado por crises ambientais, tensões geopolíticas e transformações tecnológicas aceleradas, Sara Cura acredita que olhar para a Pré-história pode ajudar a enquadrar os debates contemporâneos e identifica a cooperação uma das marcas mais profundas da humanidade.
“Tivemos sucesso porque desenvolvemos a técnica e a tecnologia, mas também porque sempre cooperámos”, afirma.
“O cuidado é uma característica indelevelmente humana”, acrescenta. Por isso, considera que algumas tendências atuais, marcadas pelo individualismo e pela competição, podem contrariar lições importantes da história humana. “Há soluções e há advertências muito importantes no nosso passado mais antigo”, insiste.
Mais do que uma viagem ao passado, a obra procura oferecer uma reflexão sobre o presente. “Entender as origens da técnica é compreender o que nos tornou humanos, como nos tornámos humanos e qual foi o papel da técnica nesse processo”, diz Sara Cura.
E acrescenta: “É um bom exercício para tomarmos melhores decisões hoje relativamente aos grandes dilemas tecnológicos que temos à nossa frente”.
"Em circunstâncias adversas conseguimos ter um espírito bastante indomável e isso não é uma coisa da atualidade, isto é assim desde que nós surgimos neste mundo", sublinha.
E acrescenta: "aquelas mesmas capacidades que nos fizeram descer das árvores, começar a caminhar, desenvolver a técnica, são exatamente as mesmas capacidades que nós precisamos para dar a volta à situação em que nos metemos, para enfrentar os dilemas que se nos colocam hoje em dia. Todas elas representam a nossa criatividade técnica".
Afinal, a história da inovação não começou num laboratório nem num computador. Começou com uma pedra talhada nas mãos de um antepassado longínquo que procurava sobreviver. E mudou o mundo para sempre.