Cultura
"Um Defeito de Cor" chega a Portugal
Vinte anos depois da publicação no Brasil, chega a Portugal o romance histórico que levou Ana Maria Gonçalves na Academia Brasileira de Letras.
Considerada uma das obras mais importantes da literatura contemporânea brasileira, a autora diz que a edição portuguesa chega tarde, porque se mantém a urgência de combater o racismo e as desigualdades: « a gente não pode perder mais uma geração para o racismo.
A gente não pode perder mais uma geração para a violência policial. A gente não pode deixar de dar oportunidade para mulheres, para negros, para indígenas, para LGBTQI+. A contribuição deles é vital para um processo de construção de uma sociedade igualitária, justa e forte».
Na entrevista à RTP Antena 1, Ana Maria Gonçalves explica também o título deste romance histórico, que remete para uma lei segregacionista da época pombalina: pretende contribuir para se alterar a ideia de que nunca existiram leis segregacionistas no Brasil escravocrata.
Créditos imagem: Bertrand Editora
Esse «defeito de cor» refere-se à cor da pele de pessoas negras ou de ascendência africana, que as impedia de ocupar cargos públicos, administrativos, militares, de prestígio ou de ingressar em ordens religiosas e no clero. Para eventualmente o poderem fazer, as pessoas com o considerado «defeito de cor» tinham de enviar uma petição formal (muitas vezes endereçada diretamente ao Rei de Portugal ou ao Imperador do Brasil), a solicitar a chamada "dispensa do defeito de cor", «ou seja, elas teriam que se desculpar por serem negras e abrirem mão de serem negras», refere a escritora.
Créditos imagem: Bertrand Editora
No centro da narrativa de "Um Defeito de Cor", está uma personagem inspirada em Luísa Mahin, associada à Revolta dos Malês (1935): um levantamento protagonizado por escravizados africanos na Bahia, liderados por uma mulher; a rebelião ficou para a história como um dos mais significativos episódios de resistência negra, no Brasil.
2006 foi o ano de lançamento deste livro, no Brasil. Demorou vinte anos a chegar ao mercado editorial português (com selo da Bertrand Editora), um ano depois de a escritora ser eleita "imortal" na Academia Brasileira de Letras: «Hoje, na Academia, somos quarenta imortais ao todo, trinta e quatro homens e só seis mulheres.
A estrutura trabalha a nosso desfavor [das mulheres] e eu acho que estar nesses locais é exatamente você trabalhar para reverter e ajudar a quebrar essa estrutura, que nunca deixou que a gente chegasse lá».