Um "filme negro" sobre uma "sobrevivente"

João Botelho, prestes a filmar uma livre adaptação cinematográfica do livro "Eu, Carolina", sobre alegada corrupção no futebol português, revelou tratar-se de um "filme negro", sobre uma "sobrevivente" de uma rede de influências, sem "pormenores sórdidos".

© 2007 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A. /

"Não quero fazer uma coisa concreta sobre a vida da Carolina Salgado e do sr. Pinto da Costa, pois não me interessam nada os episódios sórdidos. Já não gosto é das violências finais, das marcas no pescoço da Carolina, dos capangas", adiantou o realizador, em entrevista à Agência Lusa.

O projecto "Corrupção", título provisório da adaptação do livro da ex-companheira do presidente do FC Porto e versando acontecimentos do processo denominado "Apito Dourado", começa a ser produzido a 15 de Julho e o guião foi escrito por outra benfiquista, a ex-jornalista e companheira de 30 anos de Botelho, Leonor Pinhão, mãe de três filhos do cineasta.

"Os seis anos de vida em comum são verdadeiros. Ela (Carolina) foi numa visita ao Papa, coisa que nem Sá Carneiro conseguiu com a Snu Abecassis, não inventei nada. O livro foi uma espécie de motivo para falar sobre a realidade que me rodeia", esclareceu Botelho, confirmando encontros com a autora para "perceber o que era verdade e o que interessava".

A longa-metragem, com estreia prevista para final de Outubro ou início de Novembro, não será um filme comprometido com a "família benfiquista" ou "anti-portista" porque "o cinema nunca permite um julgamento", mas sim "confrontar as pessoas com questões" e denunciar a "subserviência" e as "cadeias de favores aos poderosos".

"É uma coisa muito antiga. Tivemos 300 anos de Inquisição e 48 anos de Salazar e a subserviência continua. Manda quem pode, obedece quem tem juízo, é o lema destas práticas portuguesas um pouco sinistras", afirmou, citando uma frase das escutas do "Apito Dourado".

Na película, que terá como protagonistas os actores Nicolau Breyner e Margarida Vila Nova, vão ver-se "situações de conflito, mas sem resolução" porque "o próprio livro da Carolina não tem um fim". Botelho considera mesmo que a ex-companheira de Pinto da Costa "escreveu um livro para sobreviver".

"Nada de especial até porque, com o processo, há uma brigada a investigar e não é conveniente agora as pessoas serem ameaçadas ou levarem pancada", disse Botelho, negando eventuais pressões sobre si ou o projecto e lembrando a experiência de ameaças telefónicas quando criticou o antigo presidente "encarnado" Vale e Azevedo.

O realizador quer fazer um "film noir", à imagem dos de série B norte-americana dos anos de 1940, "com poucos meios, rápido e eficaz" e com alguma acção, já que os portugueses são muito "bons na composição de planos, como na poesia", mas falham na "prosa".

"O que me interessa são as relações entre fracos e fortes, ao mesmo tempo em que decorre uma investigação, com polícias bons, maus e assim-assim. O problema é que em Portugal nada é demolidor. As pessoas gostam do molho das histórias, mas nunca há conclusões", afirmou, defendendo que "sem livro, não haveria grupo especial de investigação, nem reabertura de processos e estava tudo calado".

"Corrupção", a cargo da produtora Utopia Filmes, terá um orçamento de cerca de um milhão de euros, prevendo-se a distribuição de 40 a 50 cópias em todo o país, além da adaptação para televisão, ainda em negociações. Nomes como Alexandra Lencastre, Miguel Guilherme, Pedro Cerdeira, Rita Blanco, entre outros, deverão também participar no filme.

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