Um inesperado Natal em Cabo Verde, em 1652
Por Fernando Peixeiro, da Agência Lusa
Cidade da Praia, 03 Fev (Lusa) - O Padre António Vieira passou a semana do Natal de 1652 na Cidade Velha, em Cabo Verde, onde pregou dois sermões (22 e 26 de Dezembro) com tal sucesso que a população não o queria deixar partir para o Brasil.
A estada de seis dias em Cabo Verde não estava prevista mas o barco em que viajava o Padre apanhou uma tempestade depois de passar a ilha da Madeira, tendo de ser reparado na primeira cidade do então arquipélago português, Ribeira Grande de Santa Maria, hoje Cidade Velha.
Foi assim, de forma forçada, que o autor dos Sermões teve de permanecer uma semana em Cabo Verde, como lembrou à Lusa o professor da Universidade de Aveiro António de Abreu Freire, que no ano passado fez num veleiro o mesmo percurso que o Padre fizera em 1652.
Ainda que por pouco tempo, a presença do Padre em território foi tão intensa que a população manifestou desejos de que ele ficasse na ilha, tendo Vieira de embarcar quase secretamente para poder seguir viagem, segundo o Dicionário Histórico de Portugal.
Portugal e o Brasil comemoraram este ano o quarto centenário do nascimento do Padre António Vieira, com diversas iniciativas, como colóquios e seminários.
A presença de António Vieira em Cabo Verde, por tão curta, não e muito estudada no país. A agência Lusa tentou obter comentários de três historiadores cabo-verdianos sobre essa estada mas nenhum manifestou disponibilidade para tal, alegando insuficientes conhecimentos.
A curta visita ao arquipélago foi no entanto descrita com pormenores pelo próprio Padre António Vieira, em duas cartas que escreveu. Uma a André Fernandes, bispo eleito do Japão, escrita em Cabo Verde, dia de Natal, e outra dirigida ao provincial do Brasil, escrita já no Maranhão, em 22 de Maio de 1653.
No diário que António Abreu Freire escreveu no ano passado, quando esteve cerca de uma semana em Cabo Verde, o professor conta que da altura da passagem de António Vieira subsiste a fortaleza de São Filipe, o pelourinho gótico em mármore (de 1512), e ainda que a catedral (hoje ex-libris da Cidade Velha) não tivesse sido construída "existia já um complexo monumental de edifícios que incluíam a cúria diocesana, os edifícios do cabido e uma parte administrativa".
A Rua Banana e a Rua Carreira são também do tempo da visita do Padre e "muitas das casas que ainda hoje estão habitadas são as mesmas", garante Abreu Freire.
Desse tempo resta também a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, antigamente chamada de igreja da Confraria de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, onde o Padre António Vieira pregou o sermão de 22 de Dezembro, num pequeno púlpito ao lado esquerdo da nave.
A igreja foi restaurada com apoio espanhol, faltando agora arranjar o púlpito onde Viera pregou.
Completamente destruída foi outra igreja, que terá sido construída por volta de 1475, ainda segundo Abreu Freire, acrescentando que a escassos metros desta os jesuítas instalaram um colégio em 1604, onde permaneceram até 1642, quando abandonaram o terreno depois de conflitos com o clero local e a nova administração portuguesa.
O próprio António Vieira, que refere a existência do colégio, indica que o edifício está em boas condições e insiste junto dos seus superiores e autoridades do reino para que os jesuítas regressassem a Cabo Verde, o que não aconteceu.
De resto, é também o Padre que descreve a chegada da caravela em que viajava à vila da Praia (hoje Cidade da Praia, capital de Cabo Verde) no dia 20 de Dezembro de 1652, fundeando um dia depois na Ribeira Grande, onde foi convidado pelo governador a hospedar-se na sua residência.
Vieira estimou em 120.000 habitantes a população das ilhas, mas mencionou que a grande diocese comportava pelas 400 léguas da costa africana uma população de milhões de gentios, gente sem idolatrias e ávidos de conhecerem a fé cristã e de se baptizarem.
O Padre (lembra ainda Abreu Freire) pregou um sermão no dia 22 de Dezembro, quarto domingo do Advento, sobre São João Baptista e o baptismo da penitência, e outro no dia da partida, a 26 de Dezembro, este destinado aos padres do capítulo da Sé, exortando-os a irem ao encontro das populações das ilhas e da costa africana, com um recado muito à sua maneira: se para isso deixassem as cadeiras e coro da sua Sé, louvariam muito mais a Deus e lhe fariam muito mais agradável serviço.
O Padre António Vieira partiu de Cabo Verde a 26 de Dezembro de 1652 e chegou ao Maranhão a 16 de Janeiro de 1653, de onde acabaria por ser expulso pelos colonos por defender a liberdade para os índios.
Ainda que tivesse atravessado o oceano sete vezes, naufragado e sido assaltado por piratas, só uma vez esteve em Cabo Verde.
Morreu aos 89 anos na Bahia, quando já tinha publicado os Sermões.