Uma "casa multicultural" no coração de Lisboa

Os professores, alunos e visitantes vêm dos mais diversos pontos do Mundo. Lá dentro, as línguas multiplicam-se e chega-se mesmo a duvidar se o Chapitô, a comemorar 25 anos, se encontra no bairro típico do Castelo, em Lisboa.

Agência LUSA /

"O Chapitô é como se fosse um ponto internacional. É quase uma zona do aeroporto. Às vezes ouvimos as diferentes línguas e parece que estamos na Alemanha ou no Japão", descreveu à Lusa Rui Rebelo, professor de música na Escola Profissional de Artes e Ofícios do Espectáculo e co-fundador da Companhia de teatro, criada há 10 anos.

A instituição, "uma casa pluridisciplinar por excelência" é, também, "muito difícil de explicar", desabafa.

Primeiro, o espaço físico: um prédio antigo na Costa do Castelo, com ginásios e salas de aulas, e que se percorre através de uma escadaria que desce em caracol, até se chegar ao pátio traseiro, onde se encontra a tenda, a esplanada e a entrada do restaurante "Restô", num edifício à parte.

À esplanada e ao restaurante, local muito procurado por turistas e com uma vista privilegiada sobre Alfama e o rio, chega-se também pela rua, através de umas escadas, e é preciso descer mais uns degraus para se descobrir o NetJAZZ Café.

Pela forma como se desenvolveu, a "casa" cresceu "com muitos tentáculos , e muito bem sustentada", afirmou à Lusa a directora e fundadora da instituição, Teresa Ricou.

A imagem estende-se ao próprio funcionamento da instituição, que alia a formação e a cultura à acção social, com um trabalho junto de jovens integrados em centros educativos.

A Escola, que celebra 15 anos, disponibiliza os cursos de Arte e Animação Circenses e de Ofícios do Espectáculo, com três anos de duração e equivalênci a ao 12º ano.

A formação dos alunos pode ser complementada nos cursos de fim-de-tarde, que também são procurados por meros curiosos, interessados em aprender malabarismo, sapateado, técnicas circenses ou caracterização, ou nos "workshops" de matérias mais específicas como o teatro físico, de rua ou invisível, o mastro chinês ou o monociclo.

O Chapitô acolhe ainda os espectáculos da Companhia, concertos, conferências, exposições e ciclos, além de ter uma valência própria de produção de animações, um departamento de audiovisual e multimédia, responsável por curtas-metragens, documentários e anúncios publicitários e uma biblioteca com uma vasta documentação sobre o mundo do espectáculo e do circo.

Tudo começou há 25 anos, na casa "grande" em Santa Catarina de Teresa Ricou, ou a palhaça Tété, como é conhecida no meio artístico, que, depois de "muita actividade ligada às pistas de circo e ao Coliseu", considerou ser "altura de criar novos artistas".

À falta de espaço próprio, Teresa Ricou começou a trabalhar com "os miúdos de rua dos bairros periféricos" na cozinha da sua casa, que transformou "toda em salas de trabalho e de ensaio".

O objectivo era "criar uma casa virada para o Mundo, cheia de multiculturalidades", que fizesse uma ponte entre o Norte da Europa e África e o Brasil, proporcionando "cruzamentos culturais e de formação", descreveu à Lusa.

"São 25 anos de persistência, de resistência e de insistência nos cruza mentos da cultura e da formação", afirmou Teresa Ricou.

A diversidade do Chapitô é também visível nas idades de quem por lá passa, como os bebés a partir dos oito meses que são recebidos no Centro de Acolhimento Infantil João dos Santos, e os "alunos", desde os cinco anos, dos ateliês de circo e de capoeira.

As aulas de circo, ao final da tarde de segunda-feira, é um momento de alegria e brincadeira, ao som de músicas de circo, em que os miúdos aprendem a atirar aros e bolas coloridas ao ar e a rodar arcos na mão e na cintura.

"Não é fácil", diz o professor, Sérgio Conceição, perante as dificuldades das crianças mais pequenas em manejar os instrumentos, enquanto incentiva os mais experientes a tentar atirar "mais alto, só um bocadinho".

Para controlar os alunos, Sérgio Conceição pede às crianças que finjam que estão num circo, ideia a que aderem, entusiasmadas, aplaudindo as proezas dos colegas, mas é o "jogo do gato", uma "apanhada" feita de joelhos, que faz as delícias dos miúdos.

Alguns fazem mesmo questão de se vestir "a rigor", como Luana, de cinco anos, que usava um "maillot" de veludo azul e branco e meias com riscas coloridas acima do joelho, e nem esqueceu a maquilhagem, "para ficar com bochechinhas", disse.

O professor, 18 anos, é um ex-aluno do curso de Artes e Animação Circenses e um dos quatro estudantes do Chapitô que tentou no ano passado "ir para fora" e ingressar numa escola superior de circo, mas viu a sua pretensão rejeitada.

Por agora, ficou a estagiar, "para ganhar dinheiro", no Chapitô, onde acompanha as aulas de "aéreos", até poder fazer nova tentativa.

Confessando que a sua paixão "é mesmo a dança e, depois, o circo", a ambição de Sérgio Conceição é fundar uma companhia de "novo circo", que "conjuga tudo, é mais uma `performance`".

Preparar os alunos para que consigam ingressar numa escola superior, onde "a concorrência é muito grande", é um dos objectivos dos cursos da Escola Profissional, adiantou à Lusa a professora de técnicas circenses, Raquel Nicolette, brasileira, 28 anos.

Especialista em acrobacias aéreas, Raquel Nicolette ensina em parceria com mais dois professores, que leccionam malabarismo, equilíbrios e antipodismo (manipulação de objectos com os pés).

Afirmando que os alunos são "muito motivados", a professora sustenta que se pretende também que "percebam que o futuro profissional está nas suas mãos" .

Raquel Nicolette explica que os estudantes, alguns com formação em dança, ginástica ou com experiência de malabares, "têm sempre de complementar" as vertentes em que têm menos à-vontade, porque "a ideia é que todos tenham um corpo acrobático".

A professora orienta um curso de fim-de-tarde, destinado a quem "quer rabalhar mais o seu potencial circense", e sublinha a grande procura de "estrangeiros, que "vêm de propósito para aperfeiçoar uma técnica" e que transformam as aulas numa "multidão de línguas".

Rui Rebelo pretende que os seus alunos, no final do curso, "saibam expressar-se musicalmente e que sejam novos ouvintes de música", mas que, acima de tudo, percam os preconceitos, ensinando-lhes que "a musicalidade está em tudo".

"Se não conseguirem tocar, sabem escolher a banda sonora ideal para uma determinada cena", explica.

O edifício do Chapitô concentra muitas actividades, mas é através da Companhia que a instituição mais estende os seus "tentáculos" para fora das parede s da casa da Costa do Castelo.

"Viajamos muito com os espectáculos. Fazemos muita itinerância nacional e internacional", adianta Rui Rebelo, recordando visitas a países como o Irão, China, Brasil, Cabo Verde, Espanha ou Itália.

A Companhia pratica um "teatro mais físico, em que o texto tem um papel muito mais secundário, com uma narrativa mais musical e visual, usando quase sempre referências universais, como Dom Quixote, a Bíblia ou Romeu e Julieta".

Esta itinerância permitiu-lhes constatar que a Companhia "é mal-interpretada em Lisboa, tem muito mais reconhecimento e é bastante mais acarinhada" no estrangeiro e fora da capital.

Rui Rebelo justifica este facto com "o estigma de que no Chapitô só há palhacinhos e `freaks`", mas que não é "de todo o que se faz" naquela instituiçã o, "que é uma casa muito grande".

Para mudar esta percepção e garantir "outro tipo de visibilidade" à Companhia, "é quase vital" a abertura do Chapitô-Rio, na área do Porto de Lisboa, onde existirá uma sala com 200 lugares, ao contrário das 80 pessoas que a tenda alberga actualmente.

As novas instalações deverão acolher exposições, uma sala de espectáculos, uma escola de "rock" e a "Casa das Casas", um museu ligado às artes do circo e do cabaret, com espólios de velhos artistas, adiantou Teresa Ricou.

De olhos postos, como sempre, no rio Tejo, o Chapitô comemora ao longo deste ano, com várias iniciativas, os 25 anos da instituição, os 15 da Escola Profissional e os dez da Companhia.

Para Teresa Ricou, "são 25 anos de trabalho cultural, social e de formação de jovens e de novos públicos" e que só foram possíveis "trabalhando, trabalhando, trabalhando" como uma "formiguinha, formiguinha, formiguinha".

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