Vasco Granja morreu na madrugada de segunda-feira, em Cascais

Divulgador de banda desenhada e do cinema de animação de Portugal que conduziu na RTP mais de mil programas dedicados à sua paixão, Vasco Granja morreu esta madrugada, em Cascais.

Eduardo Caetano, RTP /
Vasco Granja foi o responsável por mais de 1000 programas de divulgação do cinema animado na RTP ao longo de mais de 16 anos Dr

Com 83 anos, Vasco Granja encontrava-se já há algum tempo internado numa clínica de cuidados continuados, em Cascais.

O corpo do conhecido cinéfilo e animador cultural estará em câmara ardente a partir das 18h00 desta segunda-feira, na Capela da Damaia, na Amadora.

O funeral realiza-se terça-feira a partir das 15h00 para o cemitério de Rio de Mouro, em Sintra.

Por sua expressa vontade o corpo será cremado.

Uma vida ao serviço da divulgação cultural

De nome completo Vasco de Oliveira Granja, nasceu no dia 10 de Julho de 1925 em Campo de Ourique, um dos bairros emblemáticos da capital.

Frequentou a escola n.º 12 do Bairro Alto passando depois a frequentar os estudos na Escola Industrial Machado de Castro. Chumbado a Álgebra, Vasco Granja abandonou os estudos e enfrentou a vida real.

Aos 15 anos, arranjou o seu primeiro emprego nos então "Armazéns do Chiado". Depressa as suas qualidades de comunicador foram reconhecidos e em breve se viu transferido para o departamento de publicidade. A seu cargo estava a criação artística e a confecção dos cartazes colocados na montra daquele que foi um dos principais ex-libris da Baixa de Lisboa.

Ansiando por melhores condições, Vasco Granja abandonou os Armazéns do Chiado e entrou para a "Foto Real", situada na Rua do Ouro, em Lisboa. Aproveitava a liberdade que lhe dava o novo emprego para frequentar com alguma assiduidade a Biblioteca Nacional.

Já então o futuro comunicador e homem de televisão, mostrava o seu interesse por museus, pintura e desporto. Com a adolescência veio o amor pelo cinema. Aproveitando a inexistência de classificação etária dos filmes percorreu todas as salas de cinema e devorou tudo o que eram as novidade cinematográficas na altura.

A adesão ao movimento cineclubista

Foi como apaixonado pelo cinema que nos anos 50, em plena época do regime salazarista que aderiu ao movimento cineclubista. Integrado nesse movimento e com o apoio das embaixadas, o movimento alugava salas e passava filmes de 16 milímetros. Apesar de se estar em plena época de censura prévia, conseguia o movimento exibir nas salas do país filmes do neo-realismo italiano.

Foi integrado nesse movimento que Vasco Granja foi preso pela PIDE - polícia política do regime - que desconfiava que a receita dos filmes se destinava a subvencionar o movimento de resistência à ditadura salazarista.

Vasco Granja conheceu então a célebre prisão do Aljube, onde esteve preso durante seis meses sem culpa formada e sem ser julgado.

Nos anos 60 arranjou um emprego na Livraria Bertrand onde se manteve até ao dia em que se reformou.

Ligado desde a década de 50 ao Partido Comunista Português, Vasco Granja esteve ligado à Festa do Avante, festa promovida pelo jornal do partido que depressa adquiriu o estatuto de um dos principais eventos culturais do país.

Foi aliás esta sua ligação ao PCP que levou a que nos anos 60 voltasse a ser preso pela PIDE, estando desta feita preso durante 16 meses, cumprindo parte do tempo de prisão no forte de Peniche, forte onde também esteve preso o secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal e que aí protagonizou juntamente com outros elementos uma fuga que se tornou célebre.

A divulgação da banda desenhada através da RTP

Com a liberdade veio a possibilidade de abertamente levar a cabo a sua paixão. 

Em 1974 iniciou um novo programa de Televisão denominado "Cinema de Animação" na RTP, que viria a durar 16 anos, com mais de mil programas transmitidos.

Nesses programas, dava a conhecer a animação de todo o mundo, desde aquela que era realizada nos países do leste da Europa, até à proveniente da América do Norte.

Pretendia, com o seu programa, divulgar, para além da própria animação, uma mensagem de paz, que considerava estar presente em muitos dos filmes da Europa de Leste que transmitia.

Na qualidade de amante e especialista deste tipo cinematográfico esteve presente nos júris de vários festivais internacionais da modalidade.

Integra a equipa fundadora da revista francesa de crítica e ensaio de banda desenhada "Phénix" nos anos 60 e em Portugal a sua actividade de divulgação da banda desenhada desenvolve-se com o aparecimento da revista "Tintin" em Junho de 1968.

Foi director da segunda séria da revista "Spirou" na sua edição portuguesa.

Morreu aos 83 anos , no dia 3 de Maio de 2009, em Cascais.

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