"Velha amiga" de Gunter Grass no Algarve perdoa "devaneio de juventude"
Debaixo do alpendre do centro cultural que gere há um quarto de século, Marie Huber, 64 anos, diz-se disposta a perdoar tudo ao amigo Gunter Grass, o artista alemão que recentemente confessou ter pertencido às SS aos 17 anos.
"Foi um devaneio de juventude, já se sabia que ele sentia um grande fas cínio por fardas", justifica a dona do Centro Cultural de São Lourenço, que conh eceu o escritor, pintor e escultor alemão no início da década de 80 e desde entã o já montou 12 exposições suas.
Declara-se convencida de que a polémica em torno da participação do Pré mio Nobel da Literatura nas SS é "uma raposa transformada num elefante", embora confesse desconhecer porque esperou ele pelos 78 anos para revelar o "devaneio" juvenil.
"Talvez não tivesse encontrado o momento certo para o fazer e tivesse m edo de desiludir as pessoas", arrisca, ressalvando a seguir que, afinal, "é para estas revelações que servem as biografias". Desiludida não está Marie, para quem Grass "sempre será o que sempre fo i".
Residentes na pequena aldeia de São Lourenço, concelho de Loulé, desde 1981, a francesa e o seu marido alemão, Volker Huber, falecido há dois anos, con heceram Grass no início da década de 80, em ano que não sabe precisar.
Na altura já Grass tinha comprado casa no Algarve, na zona de Portimão, e é a ela que retorna desde então pelo menos duas vezes por ano, na Primavera e Outono, para sentir o cheiro do mar mas também, assegura Marie, para trabalhar muito.
Quando foi pela primeira vez a São Lourenço, Grass não precisou de se a presentar: "Reconhecemo-lo imediatamente, era uma cara conhecida e é difícil de esquecer", observa, recordando que o pintor se fazia acompanhar de oito a 10 pes soas, "muitas crianças, a família toda".
Do primeiro contacto à primeira exposição algarvia foi um pequeno salto e em 1984 o artista expõe no Centro esculturas, desenhos e gravuras relativos a o livro "Die Blechtrommel" ("O Tambor") e apresenta o filme do mesmo nome do rea lizador alemão Volker Schlondorff.
Desde então, Grass e o Centro Cultural dos arredores de Almancil tornam -se inseparáveis e promovem pelo menos uma dúzia de actividades, no Algarve e em Lisboa.
Nas duas décadas seguintes, nas duas vezes por ano que o escritor e a m ulher vinham ao Algarve, visitavam sempre o casal franco-alemão e, desde que Vol ker morreu, ambos continuam a visitar Marie.
"Falamos pouco de política, eu e o meu marido não éramos muito político s, mas sabemos que ele foi sempre um homem de esquerda, ligado ao SPD [Partido S ocial-Democrata Alemão]", afirma, enfatizando que as conversas entre os Huber e Grass giravam sobretudo em torno dos projectos em comum.
É sobretudo às refeições, ainda hoje, que se fazem tais conversas, com um Gunter Grass que Marie descreve como "muito aberto, jovial e sempre a contar histórias". "Um personagem fascinante, mas também muito simples", resume.
Muitas dessas refeições, em casa dos Huber ou de Grass, são preparadas pelo próprio Grass, que aprendeu no Algarve o gosto pelo peixe.
"Ele gosta de ir à praça comprar o peixe e depois prepara-o, ele é que gosta de cozinhar", descreve Marie Huber, que aponta o peixe no forno "à moda do Algarve" como uma das delícias gastronómicas confeccionadas pelo Prémio Nobel e m sua casa.
Dividido ao longo do ano entre a cidade de Lubeck, no Norte da Alemanha , e a casa algarvia, Grass - assegura Marie - apaixonou-se por motivos algarvios nas suas pinturas e gravuras. Peixes na grelha, alfarrobeiras e figueiras const ituem a base de alguns dos seus quadros.
A partir da casa algarvia - que a dona do Centro Cultural São Lourenço se recusa a dizer exactamente onde é - sobretudo trabalha, revê textos, tem uma agenda que preenche os seus dias.
Pelo meio, visita o Centro, as suas visitas são transformadas por ali e m dias de festa, em que o autor de "O Rato" distribui autógrafos ou lê em voz al ta partes da sua obra escrita.
"Quando isso acontece, temos que tirar as cadeiras da sala, para haver lugares para todos. Depois ele pede desculpa às pessoas por estarem de pé, mas n a brincadeira diz que ele também está a ler de pé e os outros não são menos que ele", conta Marie.
Depois, quando as primeiras hordas de turistas chegam à região para con sumirem o máximo esplendor do seu sol, Grass parte para a Alemanha e deixa em Sã o Lourenço parte da sua obra, que Marie expõe e vende a alguns dos seus 50 mil v isitantes anuais.
Dezenas de gravuras, pinturas e esculturas do artista alemão, umas à ve nda, outras apenas expostas, enxameiam as várias salas do Centro e Grass, sente- se no ar, é o principal atractivo do lugar.
Contudo, jura Marie Huber, Grass não é homem que ligue muito ao dinheir o: "Ele nunca revelaria uma coisa dessas por dinheiro, nunca!", assevera, ao com entar a acusação do Conselho dos Judeus da Alemanha, para quem a confissão de te r pertencido às tropas de elite do Reich foi uma mera campanha publicitária, nas vésperas do lançamento da sua autobiografia.