Vera San Payo de Lemos distinguida em Weimar com Medalha Goethe 2006
A dramaturga portuguesa Vera San Payo de Lemos, que traduziu numerosas peças de teatro de autores alemães para português, recebeu hoje em Weimar a Medalha Goethe 2006.
A distinção premeia "o extraordinário mérito de Vera San Payo de Lemos na divulgação da língua alemã e no fomento das relações culturais internacionais", disse a presidente do Instituto Goethe, Jutta Limbach, na cerimónia solene que decorreu no Salão Nobre do Palácio de Weimar.
O elogio da homenageada foi feito pelo germanista português João Barrento, que começou por dizer que Vera San Payo de Lemos "teve um papel decisivo, nos últimos 25 anos, como intermediária de autores e peças de teatro do espaço de língua alemã, mas também da dramaturgia americana, inglesa, irlandesa e francesa contemporânea".
A professora universitária foi responsável pela tradução de muitas peças de Bertolt Brecht, a seguir ao 25 de Abril de 1974.
"Ball", "Ascensão e Queda da Cidade de Mahagonny", "Mãe Coragem e os Seus Filhos", "A Ópera dos Três Vinténs" e "A Boa pessoa de Sezuan" foram algumas das obras do dramaturgo alemão mais encenado no mundo inteiro que Vera San Payo de Lemos traduziu.
Outros autores que trabalhou foram Lutz Huebner, Peter Turrini, Botho Strauss, Einar Schleef, Werner Schwab, Tankred Dorst, Sam Shepard, David Mamet, Shelagh Delaney, Conor McPherson ou Bernard- Maria Koltès.
"Foi um destacado trabalho pioneiro no teatro português, devemos-lhe as versões para palco e a dramaturgia de mais de 40 peças de teatro", assinalou João Barrento.
O catedrático português referiu ainda que a tradução para teatro "é sempre solo escorregadio" e a dramaturgia é "uma prática transversal", para cuja introdução em Portugal Vera San Payo de Lemos "deu um contributuo decisivo e inovador".
João Barrento lembrou ainda que a dramaturga recebeu, em 2003, o Prémio da Crítica de Teatro em Portugal, "apesar de a tradução literária entre nós ser um trabalho na sombra, pouco considerado".
Vera San Payo de Lemos, nas suas palavras de agradecimento, proferidas em alemão, considerou "uma grande honra e uma grande alegria" a atribuição da Medalha Goethe 2006.
"Quando recebei a notícia, abri os olhos de espanto, como uma criança", disse a homenageada.
O trabalho no teatro começou para Vera San Payo de Lemos em 1979, o ano em que nasceu a sua filha.
O teatro, aliado à tradução, "revelou-se um esconderijo mágico para esconjurar receios", nomeadamente "os receios perante a incerteza da tradução" confessou a dramaturga.
A chave que lhe abriu a porta para o mundo do teatro, por sua vez, foi a familiaridade com a língua, a literatura e a cultura alemãs.
"E a palavra-chave foi Brecht, cujas peças de teatro já eram conhecidas em Portugal nos sinistros tempos anteriores à Revolução dos Cravos, mas não podiam ser levadas à cena", disse a professora universitária portuguesa.
A Medalha Goethe 2006 foi também atribuída hoje, em Weimar, a dois escritores exilados, o georgiano Givi Margvelachivili, ex- prisioneiro de um campo de concentração nazi, premiado pelo seu trabalho em prol do entendimento entre os povos, e o iraniano Said, distinguido por promover os contactos entre os escritores alemães e iranianos.
Vera San Payo de Lemos nasceu em 1951, em Lisboa, e estudou Germânicas na Universidade de Lisboa e na Universidade Albert Ludwig, em Freiburg (Alemanha).
É formada em Germânicas, docente na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e tem um mestrado em Estudos Alemães, com uma tese sobre o jovem Brecht, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
Em teatro, colaborou especialmente com o encenador João Lourenço, em peças para o Teatro Aberto, Teatro Nacional de São Carlos e Teatro Nacional D.Maria II.
A Medalha Goethe, sem dotação monetária, foi instituída em 1954 pelo Instituto Goethe, responsável pela divulgação da Língua Alemã no estrangeiro.
A partir de 1975, passou a ser considerada uma condecoração oficial da República Federal da Alemanha.