"Vermelho", a arte e a vida segundo o pintor Mark Rothko
Lisboa, 17 dez (Lusa) -- Rothko é o mestre e Ken o discípulo contratado para o ajudar a executar uma obra encomendada em "Vermelho", um texto de John Logan que parte do diálogo entre ambos para uma reflexão sobre a arte e a vida.
A estreia desta peça baseada em factos reais, encenada por João Lourenço, com dramaturgia de Vera San Payo de Lemos e interpretação de António Fonseca (Mark Rothko) e João Vicente (Ken), realiza-se hoje à noite, no Teatro Aberto, em Lisboa.
A ação passa-se na Nova Iorque de 1958-59, no atelier de Rothko, um pintor russo naturalizado norte-americano que vai fazer uma série de murais para um restaurante luxuoso situado no edifício Seagram, da autoria dos prestigiados arquitetos Philip Johnson e Mies van der Rohe.
Enquanto instrui o assistente para o ajudar a misturar tintas, esticar telas e aplicar a cor de base -- o que não é o mesmo que pintar, sublinha -- Rothko vai-lhe expondo as suas ideias sobre a arte, que é, segundo ele, apenas aquela que promove o encontro do homem consigo mesmo e com o mistério da existência (como a de Miguel Ângelo e a de Caravaggio) e não um mero objeto lúdico e decorativo, como as telas pingadas de Jackson Pollock ou as latas de sopa de tomate de Andy Warhol.
O discípulo, que pertence a uma geração mais nova, discorda da opinião do mestre, claro, e o diálogo entre os dois desencadeia um processo de reflexão que vai operar neles uma transformação.
João Lourenço e Vera San Payo de Lemos pesquisaram muito para encenar esta peça, como explicou o primeiro: "Fomos ler alguns livros... O Rothko é um pintor que teorizou a sua pintura e é dos poucos que escreveram, e escreveu bastante. Interessou-nos ler o que tinha escrito e o que é que havia sobre ele e também ver o percurso todo que o Logan fez para fazer a peça, onde é que ele foi buscar as coisas".
"Porque se trata de "uma obra de ficção baseada em factos reais", completou a dramaturgista.
O cenário de António Casimiro e João Lourenço torna os espectadores cúmplices dos protagonistas da peça, porque os envolve, colocando-os não à margem a observar o que se passa no palco, mas dentro do próprio atelier deste artista atormentado que acabaria por suicidar-se no início dos anos 1970.
Para Rothko, "em cada pincelada, há uma tragédia", caracterizando-se ele, por um lado, por "um certo solipsismo", o que o definia socialmente como um misantropo. Mas, por outro lado, "era um filantropo, em termos da humanidade", pela qual "sentia um grande amor", resumiu o ator António Fonseca, que encarnou a personagem sem lhe estudar o perfil psicológico -- um aspeto que não lhe interessa, por ser redutor, porque "as pessoas, mesmo na vida, não são sempre iguais".
Em vários espaços do atelier, ao longo da peça, é projetado um vídeo realizado por João Lourenço, com imagens de obras de arte e outras de pessoas a comer e a beber num restaurante, e os figurinos são de Dino Alves, que se inspirou no que se usava à época.
"Vermelho", uma peça escrita por John Logan em 2009 e distinguida com vários prémios, estará em cena na sala vermelha do Teatro Aberto até 26 de fevereiro de 2012, de quarta-feira a sábado às 21:30 e aos domingos às 16:00 (exceto nos dias 24, 25, 31 de dezembro e 01 de janeiro).