Vocabulário Ortográfico está ainda por elaborar em Portugal
Lisboa, 13 Mar (Lusa) - Os brasileiros vão ter, já a partir do dia 19, um Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, em edição da Academia Brasileira das Letras, mas o equivalente em Portugal está ainda por produzir.
"A responsabilidade é dos três ministérios que tutelam esta área: o da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, o da Educação e o da Cultura. O Acordo não pode entrar em vigor sem haver previamente um Vocabulário", assinalou à Lusa Artur Anselmo, presidente do Instituto de Lexicologia e Lexicografia, a instituição que, na Academia das Ciências de Lisboa, trata dos assuntos linguísticos.
O académico lembrou que, no passado, competiu à Academia a elaboração do Vocabulário, mas este ano o governo não apresentou à instituição qualquer pedido nesse sentido.
"A Academia - referiu - recebe ordens. É tutelada pelo ministério da Ciência, recebe instruções do governo, sempre foi assim. A Academia não tem de tomar a iniciativa de produzir o Vocabulário".
Ressalvou, neste quadro, que, cabendo a iniciativa ao governo, este poderá entender que "não deve ser a Academia a elaborar o Vocabulário".
"Tem todo o direito de o fazer. Pode nomear uma comissão de peritos capaz de fazer esse trabalho", disse.
Esclarecendo não haver nas suas palavras qualquer "crítica" mas simples "verificação de `status quo`", assegurou que a Academia, "tradicionalmente produtora de vocabulários", cumpre "disciplinadamente as tarefas que lhe são destinadas por quem de direito".
Em sintonia com outros especialistas que consideram o Vocabulário um instrumento fundamental para uma rigorosa e credível aplicação do Acordo, reiterou que, sem ele, "não há possibilidade de passar à prática o Acordo Ortográfico".
"Tem de há ver - insistiu - uma listagem das palavras que dizem respeito ao Acordo. Se não, não há".
Na opinião de Artur Anselmo, "deveria haver uma conferência inter-académica em que estivessem representados todos os países de língua portuguesa que, em boa paz, acordassem no Vocabulário".
Também contactado pela Lusa, o professor e académico Malaca Casteleiro reconheceu a importância de um Vocabulário ortográfico unificado com as alterações ortográficas introduzidas pelo Acordo, mas não dramatizou o facto de em Portugal ainda não ter sido publicado.
"O Acordo Ortográfico - disse - pode [mesmo assim] entrar em vigor. Há vocabulários entretanto publicados. É um instrumento para toda a Lusofonia. Não se trata de cada país agora fazer o seu vocabulário ortográfico".
Malaca Casteleiro insiste em que "a ideia era fazer um Vocabulário Ortográfico unificado e aceite por todos".
"Até para resolver, como é evidente, dúvidas que surgem, dúvidas que a aplicação do Acordo levanta", vincou.