Voyeurismo de reality-shows satirizado no D.Maria II

Cinco personagens dançam com ar alienado e partilham desejos, aspirações e confidências, ao som da música e das palavras do Dj BigBang, numa maratona para ganhar um prémio- mistério e alguma notoriedade, em "B.B. Bestas Bestiais", de Virgílio Almeida.

Agência LUSA /

Com encenação do actor José Neves - a primeira com um grupo profissional -, a peça, interpretada por João Reis, Adriano Luz, Dora Bernardo, Carlos Gomes, Daniel Martinho e Patrícia Bull, estreia-se quinta-feira na sala estúdio do Teatro Nacional D. Maria II.

Ao fim de 27 dias, os cinco concorrentes são o que resta dos 30 pares iniciais do concurso - "Palmas para eles", diz o DJ em tom provocador, recordando-lhes que não podem parar ou tocar com os joelhos no chão.

"Daqui, vou chegar a VIP, montada no prémio-mistério", diz Sabina, uma das personagens, acrescentando: "o Dj está sempre a chamar-nos cavalos, não está?".

Virgílio Almeida disse à Lusa que a ideia desta peça, escrita "durante os últimos três meses do ano passado", lhe surgiu ao rever, na televisão, o filme "Os Cavalos Também Se Abatem", de Sydney Pollack, baseado no romance de Horace MacCoy, depois de terem sido exibidas em Portugal várias edições do reality-show "Big Brother".

"Já tinha visto o filme há muitos anos, é o filme que relançou a carreira da Jane Fonda, e eu fiquei sentado a vê-la protagonizar uma maratona de dança e aos poucos deixei de a ver, deixei de ver o filme do Sydney Pollack e começaram a vir-me à cabeça todos aqueles intérpretes do `Big Brother`", relatou.

"Dois anos mais tarde - prosseguiu - percebi que o denominador comum era as pessoas sujeitarem-se a tudo, ou por dinheiro, ou para reluzir, até mesmo por um prémio que nem se sabe o que é".

O título, "B.B. Bestas Bestiais", é - explicou - "um trocadilho com imensas coisas de que toda a equipa gosta: pode ser a Brigitte Bardot, podem ser as iniciais de Bestas e Bestiais, pode ser Big Brother, pode ser Bem Boa, que era uma gasosa fantástica que havia nos anos 70".

Sublinhando que este "não é um espectáculo do teatro contra a televisão", até porque "são mundos distintos", o autor classificou-o como "um grito, um espectáculo para desassossegar um bocadinho as pessoas".

"Inquieta-me um bocado ver que se ganha prémios sem se fazer nada. É uma sociedade estranha em que eu não gostava que os meus filhos e os meus netos vivessem, uma sociedade de voyeurismo", sustentou.

Segundo Virgílio Almeida, a peça, que é uma crítica, "tem, ao mesmo tempo, um lado profundamente humano, porque mesmo estas pessoas, que vêm com toneladas de maquilhagem e as roupinhas lavadas, com um palminho de cara, como diz o Dj, têm uma história de vida" que é contada.

"Saímos deste continente, vamos para África, percebemos que houve um enredo no passado, que culmina aqui com uma morte, falamos dos professores de matemática desempregados, falamos das portuguesas que engravidam aos 14 anos - a construção da narrativa é associativa, não é linear e tudo é brutalmente real", salientou.

"O que aparentemente aqui é uma alucinação - insistiu - é uma alucinação profundamente recolhida da realidade, nesses dois anos em que andei a matutar neste projecto".

O espectáculo é, na opinião do autor, "uma tragicomédia, um soco no estômago, mas também tem um lado que é um grito de inquietação", como canta José Mário Branco.

"A função do teatro foi, é e continuará sempre a ser desassossegar as pessoas, mas eu queria que este fosse um desassossego construtivo e não uma crítica distanciada de uns pseudo- intelectuais do teatro aos reality-shows da televisão", argumentou.

"Mais do que um mestre-de-cerimónias, ou de alguém que põe música", a personagem do Dj, que "evoca nomes como Freud, Octávio Paz, Mao Tse Tung, vai buscar o Renascimento italiano, e é uma memória deste século", fornece "uma visão clara do percurso que a humanidade tem vindo a trilhar", sugerindo que talvez deva fazê-lo de novo, em vez de perder-se em tentativas de glória vã e decadente.

No final, depois de anunciar o vencedor e de desvendar qual é o prémio-mistério, o Dj, que considera não estar a apresentar um concurso mas "em trabalho de parto" - "Vou parir-vos para o show business", declara -, informa que no dia seguinte começa uma nova maratona e que "as novas bestas já foram escolhidas, estão a cheirar- se umas às outras".

"B.B. Bestas Bestiais" é a sexta peça de Virgílio Almeida, de 46 anos, que até agora escreveu sobretudo teatro infantil, além de 15 argumentos para filmes de animação premiados em festivais de cinema de vários continentes.

Classificado para maiores de 16 anos, o espectáculo, uma co- produção Teatro Nacional D. Maria II e Klassikus, estará em cena até 03 de Junho.

PUB