"Vozes de Chernobyl", da Nobel da Literatura, apresentado hoje em Lisboa
Lisboa, 26 abr (Lusa) - A obra "Vozes de Chernobyl", de Svetlana Alexievich, distinguida no ano passado com o Nobel da Literatura, é apresentada hoje, em Lisboa, no dia em que se completam 30 anos sobre o desastre na central de Chernobyl, na Ucrânia.
O desastre, diz a escritora, "ultrapassou o holocausto" e "sugere finitude", "vai ao encontro de nada". Foi, afirma, "um suicídio coletivo", em que "o tempo mordeu a própria cauda" e o princípio e o fim se uniram: "O mundo à nossa volta, antes complacente e amigável, [é] agora de incúria e medo", escreve, lembrando os efeitos da radiação que se mantêm nas novas gerações, nas crianças, nos animais mutantes, nos rios e nas florestas.
Neste desastre, escreve a autora, "juntaram-se duas catástrofes": a social, que colapsou a antiga União Soviética, o gigantesco continente socialista que congregava, entre outros territórios, a Ucrânia e a Bielorrússia; e a cósmica , Chernobyl, ela mesma. "Duas explosões globais", segundo Alexievich.
"A primeira [é] mais compreensível. As pessoas estão preocupadas com o dia-a-dia: com que dinheiro comprar? Para onde ir? Em que acreditar? Que novas bandeiras adotar? (...) Quanto a [o desastre de] Chernobyl, gostariam de esquecê-lo, porque a consciência capitulou perante ele. Catástrofe de consciência. O mundo das nossas crenças e valores explodiu", escreve Svetlana Alexievich.
A obra é apresentada hoje, quando se completam 30 anos sobre o desastre, na FNAC do Chiado, em Lisboa, numa sessão, marcada para as 18:30, que conta com a participação da tradutora para português, Galina Mitrakhovich, da crítica literária e autora Filipa Melo e dos jornalistas José Milhazes e João de Almeida Dias.
A atribuição do Prémio Nobel à escritora bielorrussa, em 2015, "confirmou o fenómeno: a realidade chama pelos escritores", afirma o jornalista Pedro Moura, no prefácio da obra.
Svetlana Alexievich, segundo o autor do prefácio, "fez mais" do que "o relato culto e inteligente do que se passa", e a "realidade [de Chernobyl] exigia a presença dos escritores".
Atualmente Chernobyl, na Ucrânia, na proximidade da fronteira bielorrussa, é um cartaz turístico, a zona infestada é promovida como circuito para curiosos, que "tem início na cidade fantasma de Prípiat", na Ucrânia, onde "os turistas podem ver os edifícios abandonados", percorrem "as aldeias abandonadas" e visitam o "Abrigo ou simplesmente o sarcófago", terminando a visita junto ao memorial "dos heróis caídos em Chernobyl".
Há ainda um piquenique com alimentos biológicos e "é prometido que, durante o dia passado na Zona, o turista apanhe uma dose de radiação menor do que quando faz um raio-X". Há contudo alguns conselhos, nomeadamente não devem nadar, comer peixe ou caça capturados na região, "nem oferecer às mulheres flores silvestres".
A situação, porém, afeta uma vasta região, ultrapassa fronteiras e atinge ainda o território da atual República da Bielorrúsia.
O fio narrativo de "Vozes de Chernobyl" é feito pelas pessoas que a escritora encontrou, pelas suas histórias sobre como o desastre nuclear da então central soviética as afetou, sobrepondo as diferentes vozes, com as quais compõe a obra literária.
"Vozes de Chernobyl" divide-se em sete partes e um epílogo. Uma "introdução histórica", um texto intitulado "uma solitária voz humana", que é o testemunho de Liudmila Ignatenko, mulher de um bombeiro morto, e uma entrevista da autora a si própria, antecedem os três capítulos em que o desastre é relatado, desde os primeiros momentos de pavor e pânico, e também de incerteza, até à confrontação com a realidade que irá persistir por "muitas gerações".
O epílogo é precedido de um outro testemunho, também intitulado "uma solitária voz humana", em que, desta feita, fala Valentina Timoféievna Apanassévitch, mulher de um liquidador.
Na autoentrevista, a autora afirma-se testemunha de Chernobyl, que aponta como o principal acontecimento do século XX, e esclarece que esta obra, que levou 20 anos a escrever, não é sobre o desastre, "mas sobre o mundo de Chernobyl", ocupando-se da "história omitida".
Svetlana Alexievich afirma que escreve sobre "os sinais sem deixarem sinal, da nossa permanência na terra e no tempo".
O testemunho do jornalista Anatoli Chimanski recorda que "os pescadores encontram cada vez mais peixes anfíbios, que tanto podem viver em água como na terra".
"Em breve, algo de semelhante vai começar a acontecer às pessoas. Os bielorrussos vão transformar-se em humanoides", antecipa o jornalista, que dá ainda conta de que "os bichos da floresta têm doenças da radiação" e que os filhos dos `chernobylianos` nascem, "mas, em vez de sangue, têm um líquido amarelo não identificado".