"Wuyani! Belani khu nyumbani" - saudação dos locais de Inhambane à chegada dos portugueses

Lisboa, 25 Jan (Lusa) - "Wuyani! Belani khu nyumbani" (ou "Bem vindos! Entrai em nossa casa") terá sido a primeira frase que os portugueses ouviram, quando as naus e caravelas de Vasco da Gama aportaram à baía de Inhambane (norte da actual Maputo).

© 2008 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A. /

Reza a tradição que os habitantes de Inhambane são hospitaleiros e que, desde sempre, privilegiaram a arte de bem receber, não tendo os portugueses que lá aportaram nos finais do século XV fugido à norma.

Desconhece-se naturalmente o diálogo que então se seguiu", afirmou à Agência Lusa Sara Jona, co-autora do inédito dicionário Português-Gitonga e Gitonga-Português - um dos muitos dialectos moçambicanos, lançado hoje em Portugal -, sublinhando que, por causa dessa hospitalidade, os portugueses baptizaram a região com o nome de "Terra da Boa Gente".

O Gitonga é um dialecto oriundo das línguas bantu faladas em Moçambique e serve de comunicação para um universo de cerca de 23.000 pessoas, muito menos do que há algumas décadas, nos actuais distritos de Inhambane, Inharrime, Maxixe, Morrumbene, Jangamo ou Massinga.

Além de Sara Jona, o dicionário, financiado pela Câmara Municipal de Oeiras (Portugal), tem como co-autores Eugénio Filipe Nhacota e o frei Bernardo Amaral e engloba também um "apêndice gramatical", para que se perceba quais as regras para se poder falar o Gitonga.

O Gitonga, segundo o linguista Ernesto Andrade, professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, é falado pelo povo Tonga (Vatonga), que já se encontrava na baía de Inhambane no século XV, não sendo, porém, um dos mais importantes dos povos de Moçambique.

"Não se pode dizer com exactidão quantos são os idiomas maiores ou menores de Moçambique, mas o número varia entre as 17 línguas base e 10 dialectos e mais de 70 dialectos", afirmou Ernesto Andrade na cerimónia de lançamento da obra, que decorreu na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Idealizada pelo poeta e escritor moçambicano Mia Couto, na sequência de uma conversa tida em 2000 ao jantar, em Maputo, com o actual presidente da Câmara de Oeiras, Isaltino Morais, o dicionário conta com 2.600 entradas e demorou sete anos a ser concretizado.

Se Isaltino Morais garantiu o financiamento, Mia Couto criou uma equipa que, no terreno, questionou, ao longo de anos, os "informantes", explicou à Lusa Sara Jona.

"Falámos com centenas de informantes, que nos ajudaram quer na tradução quer na introdução das palavras, uma vez que, em África, não existem bibliotecas nem livros, mas sim a tradição oral", sublinhou a co-autora do dicionário, cuja primeira edição, a cargo da Câmara de Oeiras, foi de 1.500 exemplares, ao preço de quatro euros.

"Se se pretende apoiar as popularização do idioma Português em Moçambique, há que, em simultâneo, defender as línguas moçambicanas de raiz bantu. Trata-se de criar pontes de apoio recíproco entre rios que flúem na mesma direcção", salienta Mia Couto no prefácio da obra.

O escritor moçambicano defende que o exemplo do dicionário em causa "poderá inspirar outras câmaras portuguesas" a concretizarem projectos culturais da mesma natureza em Moçambique.

"As principais línguas de Moçambique poderiam facilmente ser contempladas, de forma a cobrir a diversidade linguística do país", sustenta Mia Couto no prefácio do dicionário de um dialecto que é utilizado, a par do português xitshwa e cicopi, nas emissões radiofónicas da Rádio Moçambique.

O recuperar do dialecto tem sido uma "grande tarefa", disse frei Bernardo Amaral, co-autor do trabalho, que tem em curso a tradução para Gitonga de vários livros de culto religioso, o que se saldou já na publicação do Missal, Novo Testamento e do filme "Jesus".

Em curso está, entre outras obras, a tradução do Antigo Testamento para Gitonga, dialecto que é já alvo de um curso de alfabetização de adultos em várias regiões da província de Inhambane.

Lusa/Fim


PUB