Zeca Afonso e as palavras que "Quanto mais se apartam / Mais se ouve o seu grito"

Zeca Afonso morreu há 30 anos. Marcou o património musical português, como cantor e compositor e fica para sempre ligado à geração de Abril.
No Jornal 2 Rui Paulino David recorda-o cantando "Que o Amor Não me Engana".

João Fernando Ramos, Rui Sá /
José Afonso nasceu em Aveiro em 1929. faleceu em Setúbal, faz agora 30 anos. Nos caminhos da vida, o cantor e compositor passou por diversas localidades.

Coimbra onde chegou nos anos 40, para estudar, primeiro no liceu, depois na faculdade é uma das cidades que mais o marca. Outra é Paris onde viveu no exílio e onde em 1973 edita com José Mário Branco "Venham Mais Cinco".

"Que o Amor Não me Engana" é uma das dez canções que fazem o alinhamento deste que se transformará num dos seus mais icónicos trabalhos.

Editado no Natal de 1973, este que seria o último álbum de José Afonso antes da revolução de Abril, é também resultado do período que, nesse ano, passou preso no forte de Caxias.

Nesses dias em que o autor escrevia muitas das canções que se tornariam seus clássicos ("Venham Mais Cinco" ou "A Formiga no Carreiro") José Afonso cantava um pouco por todo o lado como símbolo antifascista de oposição ao Estado Novo.

Muitas dessas sessões foram proibidas pela PIDE/DGS e, em abril de 1973 ele seria detido.

O poema da canção "Redondo Vocábulo", que também integra o álbum, foi um dos que escreveu nesses dois meses de detenção.

"Que Amor Não Me Engana" é uma espécie de antecipação de Abril... "Em novas coutadas / Junto de uma hera / Nascem flores vermelhas / Pela Primavera".

A canção, que no Jornal 2 tem uma nova versão a cargo de Rui Paulino David, é também a promessa de que, nesses meses que faltavam para a revolução dos cravos, a sua voz seria a da denuncia do regime.

"E as vozes embarcam / Num silêncio aflito / Quanto mais se apartam / Mais se ouve o seu grito // (...) // Assim tu souberas / Irmã cotovia / Dizer-me se esperas / O nascer do dia".
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